segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Corpo fatiado falante ou Como sair da rotina

Imagine que você vai visitar uma amiga e quando chega ao quarto se depara com o corpo dela fatiado dentro de um saco plástico. Pânico total, né? Mas o pior ainda está por vir: o corpo fala com você. Não, não é alucinação. O corpo fala, não o espírito, alma de outro mundo ou algo assim, a matéria fala.
Deve estar pensando: O corpo pede ajuda para punir o culpado pelo crime ou quer um justiceiro que se vingue do homicida responsável por aquele “fatiamento”. Certo? Errado! Na verdade o defunto, a defunta no caso, quer ajuda para arranjar um outro corpo em um estado melhor. Bem melhor!
Tudo bem, tudo bem. Eu explico direito essa história pra você que está achando isso sem pé nem cabeça. Vamos por partes. Na verdade estou falando do curta-metragem “Semi-novo”, de Rodrigo Valle e Marcos Vinícius Brito. Mais aliviado agora? Vamos ao filme então.
“Semi-novo” conta a história de Marcos (Pedro Plaza), um rapaz super, hiper, mega certinho. As gavetas dele são muito arrumadas, roupas dobradas com o mesmo tamanho e meias enroladas exatamente iguais. Ele chega todos os dias à padaria às 7h55, em ponto, pede sempre a mesma coisa, as mesmas excentricidades como mixto quente tostado só nas bordas.
Marcos não faz nada que não esteja programado. Rotina, meus caros, muita rotina. O moço tem uma agenda onde anota todos os compromissos, horário por horário, chega ao extremo de escrever os minutos certinhos, certinhos. Entre os compromissos do dia de Marcos estão visitar a amiga Gabi e o grupo de estudos.
Mas a visita dará uma guinada na vida de Marcos. Como vocês já sabem, ele encontra a amiga fatiada dentro de um saco e, pelo bem da amizade, sai com ela para arranjar um corpo novo ou melhor dizendo, semi-novo.
Ele leva o saco em um carrinho de mão e assim eles conversam pelo caminho. Conversas que vão desde o que é normalidade até como Marcos se refugia do mundo utilizando aparatos tecnológicos como um MP4.
O senhor certinho leva a amiga para o hospital. Diante do absurdo daquilo, ela diz que não quer se transformar num Frankenstein. Então, eles seguem rumo ao IML. Lá, o atendente (Marcos Lotufo) ajuda os amigos a acharem um corpo semi-novo para Gabi.

(Aviso importante: Se você não quer saber o fim do filme, pare de ler aqui).

Ela escolhe, mas não vemos o corpo escolhido. Corte, mudança de plano e já vemos os dois amigos andando na rua. Só que ao lado de Marcos está um homem (com roupa de quem saiu do IML) falando com a voz de Gabi. Ela/ele agradece o amigo pela ajuda e diz que vai sair para aproveitar as novas possibilidades do corpo.
Diante de tudo aquilo, Marcos joga o MP4 e a agenda no lixo. Um homem passa e atira um toco de cigarro no chão. Marcos pega o cigarro e sai fumando.
Por que não?
É claro que a situação do filme é exagerada e nunca vai acontecer. Mas, por que não? Às vezes precisamos mudar e ficamos esperando grandes coisas acontecerem na nossa vida. Talvez não precisemos. Talvez é só uma questão de encarar a realidade de frente, ver o outro lado da balança e se perguntar: Por que não?

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Um comentário:

Alberto disse...

Parei de ler no "Aviso importante". Como faço pra ver este filme??? Bjus