terça-feira, 30 de dezembro de 2008

A loja de biografias

Um amigo me contou, e jurou que era verdade, que em sua última viagem a Bolívia encontrou uma loja de biografias. É isso mesmo, eles vendiam biografias. Mas não dessas feitas contando o que já passou na vida das pessoas. Essas eram escritas sobre o futuro.
Ele me disse que a loja era até muito freqüentada. E que no fim de ano, quando as pessoas repensam tudo o que se passou para planejar o próximo ano, a loja fervia de gente. Ele jurou que viu até uma fila na porta. Gente com imensos livros à espera de alguém que lhes escrevesse a biografia.
Parece que funcionava assim: biografias escritas com calma, pensadas e planejadas podiam ser bimestrais ou semestrais. Havia uns mais afoitos que queriam escrever a vida toda de uma única vez. Outros, uma turma ali do meio, preferia escrever de ano em ano.
Dizem que o dono da loja aprendeu essa magia com os índios e depois de anos de estudo a transformou em ciência com patente e tudo. Um jeito fácil para ajudar quem não sabe o que quer da vida ou então, apenas dar uma mãozinha aos mais prevenidos.
Ah, já ia me esquecendo. Meu amigo disse também que o que era escrito acontecia. A vida seguia à risca o que estava na biografia. Assim, mocinhas que sonhavam com um grande amor pediam para que fosse escrito nos livros como iriam encontrá-lo meio sem querer numa paisagem linda, num dia ensolarado, no dia em que ele ia se apaixonar perdidamente (e à primeira vista) por ela.
Outras pessoas queriam mesmo é ficar ricas. Daí, bolavam jeitos e jeitos para isso. Algumas ganhavam na loteria, havia aquelas que recebiam heranças distantes e perdidas de parentes que nem conheciam e outras pediam para trabalhar um pouquinho em algo rentável, que é pra dar mais valor ao dinheiro.
Diz até que uns depressivos pediam para ter coragem de suicidar. Doentes pediam curas. E os maltratados pelo coração queriam mesmo era dar uma lição em quem os havia deixado.
Agora meu amigo está pensando em abrir uma franquia da loja num shopping aqui da cidade. Será que a moda pega aqui também?
A propósito, Feliz Ano Novo! Vê se escreve sua vida direitinho no ano que vem!

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quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Feliz Natal!


Às vezes acho que somos muito hipócritas. É que com esse papo de que Natal é época de compaixão, de perdão e de amor, acabamos fingindo ser o que não fomos durante todo ano. Viramos a cara para os mendigos nas ruas, mas no Natal, vamos lá dar uma moedinha. Brigamos com os familiares, mas tudo se resolve quando no Natal compramos um presente. Ah, fazemos tantas coisas que são dignas de fazer corar qualquer cristão durante 11 meses, mas no 12º, tudo está esquecido e resolvido. Isso sem contar que o Papai Noel consumista tem mais destaque que Jesus Cristo no Natal.
Por tudo isso e muito mais, desejo pra você que o dia 25 de dezembro seja um dia comum de sua vida e que os outros 364 dias do ano sejam comemorados como o dia do nascimento de Jesus. Desejo menos egoísmo e mais sentimentos nobres. Desejo 2009 novo numa vida velha!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Teje preso, Seu mosquito!

Um homem entrou na Justiça pedindo indenização contra o Estado, a União e o Município por ter perdido o emprego porque ficou afastado do serviço por causa de uma dengue. Estado e a União alegaram que esse assunto é competência do município. Já o município se defendeu falando que como o homem mora na divisa de Goiânia com Trindade a cidade não pode pagar por isso, já que o mosquito pode não ser goianiense.
Pasmem, essa história é real. A audiência de conciliação (onde não ocorreu conciliação nenhuma) foi ontem. Não, isso não é uma piada. Não estou brincando!
Fiquei pensando como os advogados de Goiânia puderam apresentar isso como defesa!
A advogada do homem desempregado ainda curtiu durante a entrevista dizendo que eles não pediram o comprovante de endereço do mosquito.
Ficamos lá na TV confabulando hipóteses para o mosquito não identificado. A primeira foi que ele pode ser um morador de Trindade que trabalha em Goiânia. A segunda foi que ele é um devoto do Divino Pai Eterno que, morando em Goiânia, resolveu fazer uma visitinha ao outro município para pagar promessa. Mas a terceira hipótese foi a que intrigou a todos: E se os pais do mosquito não o registraram? Se é um mosquito indigente, como vamos achá-lo pra saber de quem é a responsabilidade da transmissão da doença?
Portanto, se você avistar um mosquito da dengue voando por aí, grite logo: “Teje, preso, Seu mosquito!”. Chame os agentes de saúde e peçam pra averiguar se foi ele quem picou o homem que perdeu o emprego.
Ah, um conselho muito importante: Se algum mosquito quiser te picar, não deixe antes que ele te mostre a identidade e o brevê (porque não é qualquer inseto que pode sair voando por aí sem autorização da prefeitura!).

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terça-feira, 16 de dezembro de 2008

De Papai Noel para Emilly

Olá, Emilly!
Fico muito feliz em saber que crianças como você ainda acreditam em Papai Noel. É que com essa época consumista, muitas crianças deixaram de acreditar na magia do Natal e hoje só pensam em dinheiro. Sabe Emilly, algumas crianças crescem e deixam de acreditar em coisas mágicas, como eu. Outras crescem e deixam de ser solidárias e ainda há aquelas que se tornam más. Crianças grandes e más são egoístas, não sabem perdoar, não sabem ajudar os outros sem que ganhem algo em troca, são corruptas, fingem que não vêem as misérias desse mundo, isso quando não colaboram para que o mundo se torne ainda pior.
Achei bonita essa sua idéia de montar uma ONG para ajudar menores que moram nas ruas. Talvez se cada um de nós fizesse a sua parte, teríamos um mundo melhor. E nem precisava fazer muita coisa grande, porque uma ONG deve dar trabalho, basta ajudar o vizinho do lado, ser mais paciente com o colega de trabalho, realizar alguma tarefa doméstica para ajudar a família, sorrir para uma pessoa triste ou até mesmo fazer uma doação para uma instituição de caridade.
Ah, Emilly, por que será que as crianças esquecem de algumas coisas quando crescem? Seria muito bom se as crianças continuassem puras de coração e não se deixassem influenciar por coisas nocivas. Não seria bom se só amadurecêssemos?
Quando você escreve na sua carta que sua mãe disse que tudo vai se resolver, acredite. Também acho que no futuro tudo vai dar certo. A nossa tendência é sempre evoluir, melhorarmos e aprimorarmos cada vez mais. E lembre-se que aprendemos muito com as coisas tristes da vida.
Querida Emilly, queria te pedir duas coisas. A primeira é que conserve essa sua bondade e a outra é que peça para que os seres humanos cuidem melhor do meio ambiente. É que o Pólo Norte está ficando muito quente!
Bjos,
Até o ano que vem!
Feliz Natal!
Papai Noel


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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Do "Será só imaginação?" para o mundo parte II

Mais uma vez um texto do "Será só imaginação?" ganha as páginas da Internet. Dessa vez foi a crítica sobre o espetáculo teatral 'A corrente de Eléia', da Cia. Ciclomáticos, do Rio de Janeiro.
Os Ciclomáticos postaram o texto "A tortura de Eléia" no blog deles.
Para conferir: http://osciclomaticos.blogspot.com/2008/12/uma-f-de-goinia-assiste-corrente-de.html

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

De Emilly para Papai Noel

Todos os anos os Correios disponibilizam cartas que crianças carentes mandam para o Papai Noel para que pessoas possam adotá-las e doar os presentes para elas. Esse ano decidi adotar uma dessas cartinhas, tinha dentro de mim que só adotaria uma carta que me emocionasse. Entre crianças que pediam bolas, carrinhos de controle remoto, Barbies, bicicletas, televisores e até mesmo geladeira, achei uma linda, que transcrevo exatamente como foi escrita (até mesmo com os erros ortográficos):

“Oi Papai Noel. Mi chamo Emilly Gabrielly Ribeiro Gomes gosto muito de estudar de brincar afinal como todas as crianças para um dia ser bastante rica para dar uma casa própria para minha mãe. E fazer uma ong para tirar todas as crianças que vivem na rua e dar uma moradia.
E agora vou contar um pouco da minha história moro com minha mãe meu padrasto três irmãos de consideração que são os filhos do meu padrasto e tenho uma irmãzinha de verdade que mi faz dar boas gargalhadas.
Papai Noel estou escrevendo essa carta porque no ano que vem minha mãe não vai poder mi dar o que eu vou pedir porque ela é manicure e meu padrasto está dezempregado e estamos passando algumas dificuldades más minha mãe disse que tudo vai se resolver.
Por isso gostaria de ganhar um estojo com lapis de cor e canetinha um lapis de escrever algumas canetas borrachas tintas um pincel régua e um apontador e uma cola é claro se não for pidir demais ficarei muito agradecida para que possa colorir meus dezenhos e escrever bastante e no futuro ser uma grande advogada.
Feliz Natal
Beijo”.

Quem quiser adotar uma cartinha pode ir à agência central dos Correios, que fica na Praça Cívica, até o dia 18.

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segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Um quadro na cozinha de casa

Li certa vez, não me lembro mais onde, que dois ladrões roubaram um quadro famoso de uma galeria. Na hora de repassar a pintura, o comprador internacional desistiu. Com a polícia internacional atrás da obra, um dos assaltantes teve que ficar com a tela em casa.
Assim, ele, não tendo outro lugar para a pendurar, colocou a pintura na cozinha da casa, perto do fogão. A mulher do bandido odiou aquela história. Achava o quadro horroroso. Desconhecia o valor artístico da obra e só via naquela tela um amontoado de tintas sem sentido.
Tempos depois, após uma denúncia, a polícia descobriu o paradeiro do quadro. A mulher ficou aliviada por levarem aquela coisa horrível que deixava feia a cozinha dela.
No domingo acordei pensando nessa história. É que muitas vezes tratamos as pessoas como a dona de casa fez com o quadro. Ela tinha algo com um valor enorme (não só materialmente, mas um valor artístico e histórico) mas não soube reconhecer. Para ela, a pintura que tinha sido tirada de um museu em que todos a admiravam era apenas um amontoado de tintas.
A mulher não tinha os sentimentos refinados para apreciar uma obra ou apenas tinha uma resistência a aceitar algo novo na vida dela. Mais do que isso, além de não dar a importância devida à tela, ela a engordurou toda com os vapores e respingos do fogão. Aquela obra foi danificada apenas porque alguém não a soube olhar.
Muitas vezes não damos a atenção devida às pessoas que estão do nosso lado. Deixamos de ver nelas coisas boas e, ou estamos perdidos demais em nós mesmo pra enxergar, ou simplesmente não queremos dar o valor que elas realmente têm.

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quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Do "Será só imaginação?" para o mundo

Tudo bem, tudo bem, para o mundo é um pouco de exagero! Do "Será só imaginação?" para outros sites: o texto "E você, já matou alguém hoje?" está na seção 'Boca Livre', do site 'Pauta Goiás', uma página da net voltada para jornalistas.
Para quem quiser conferir: www.pautagoias.com.br

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Voar


Foto: Divulgação


Um homem que sabe voar; outro homem acha uma pedra no rio que é capaz de comprar qualquer cidade; um outro que não aparece em cena, mas que está lá, perguntando e ouvindo a resposta; outros homens na platéia.
Voar, assim como quem abre as asas e plana sobre o Cerrado. Voar, assim como quem dá um rasante e vê de perto quem habita essa terra de árvores esparsas e retorcidas. E é assim, como pássaros que observamos a interpretação de Marcos Fayad na peça “Voar”, uma adaptação de textos de Gil Perini.
Atuação brilhante de Fayad. Um homem feio, caolho, desdentado, enrolado em uma colcha de retalhos, calça rasgada, camisa de manga longa e chapéu. Uma dessas figuras que quem conviveu com gente da roça deve ter visto inúmeras vezes. Homens humildes, cheios de histórias fantásticas (que juram que são verdadeiras) e um imenso amor à vida simples e ao Cerrado.
Uma fogueira, uma árvore, um banco, um interlocutor imaginário e alguns causos, assim é o monólogo “Voar”. A poesia do Cerrado de forma simples. O homem do campo começa a narrativa pela história de um amigo, que sabia voar e que um dia, havia jurado que lá de cima viu borboletas só de uma asa e que para continuarem vivas se abraçavam e batiam as asas juntas, como se fossem uma só.
Mas ele não está lá só para falar do amigo. Há também a própria história. Um dia, quando estava na beira do rio ele viu uma pedra, que brilhava como o sol. Um brilho que ofuscava as vistas e que se revelou um diamante tão grande quanto um ovo de galinha.
O que fazer com o achado? O homem do Cerrado começou a pensar como um doido em tudo o que aquela pedra podia lhe trazer: a bicicleta que não teve na infância e até mesmo a carne que era artigo de luxo e que, quando criança, desejava comer sempre e poucas vezes tinha no prato. Dos sonhos pequenos aos sonhos grandes: fazendas, casas, até uma cidade inteira.
Então, pensou que perderia o sono, o sossego e ganharia preocupações que só o dinheiro pode trazer. Perderia o cantinho em que sempre morou, o canto dos pássaros, as árvores e os caminhos que conhecia até mesmo com o olho fechado. Ganharia as preocupações do mundo.
O que fazer com o diamante? Qual caminho traçar?
“Voar” é uma bela história, que valoriza as nossas raízes, nossa gente humilde, nossas histórias. Marcos Fayad interpreta um homem de fala mansa, com sotaque carregado, que fala errado, mas que traz pureza no coração.
O cenário é simples e ao mesmo tempo lindo. Uma preciosidade de quem entende que menos pode ser mais: uma árvore feita com lascas de madeira, uma fogueira, um banquinho e um círculo feito de folhas secas. Assim é “Voar”.

A peça “Voar”, da Cia. de Teatro Martim Cererê, com direção e interpretação de Marcos Fayad esteve em cartaz no Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro nos dias 29 e 30 de novembro.

Para ler: O Pequeno Livro de Contos do Cerrado, de Gil Perini.

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quinta-feira, 27 de novembro de 2008

E você, já matou alguém hoje?

Escolhi uma profissão que lida diretamente com a realidade das coisas. Além disso, fui mexer com imagens, televisão. Então, muitas vezes vejo e ouço coisas que não vão ao ar pelo absurdo que são. Já vi cadáveres em putrefação, cabeças sem corpo, sangue, trechos de entrevistas que as pessoas falam coisas horrorosas e até cenas de sexo que um ex-namorado decidiu espalhar por celular para desmoralizar a namorada menor de idade. E de tudo isso resguardamos nosso telespectador. Muitas vezes quem está em casa só vê imagens nubladas ou com mosaico, mas nós vemos tudo.
Baldes de realidade assim na cara me fazem refletir sobre nós, os seres humanos. Há cerca de duas semanas editei uma matéria sobre uma menina de 10 anos que tinha encontrado uma ossada humana, a vítima, enterrada debaixo de uma mangueira deveria ter entre 14 e 16 anos. A menina que a encontrou estava assustada e chorava dizendo que estava com dó já que aquilo poderia ter acontecido com qualquer um, até mesmo com ela. Até aí, tudo bem. Uma atitude esperada para seres humanos dotados de compaixão.
Mais na frente, a repórter Vanessa Lima perguntava para uma moradora do bairro se ela tinha ficado assustada com a descoberta da ossada ali perto da casa dela. Para meu espanto, a mulher disse que não! Ela disse que até achou que fosse osso de cachorro! (aposto que ela teria outra opinião se fosse um parente dela).
Alguns dias depois fui editar uma matéria sobre um bairro de Aparecida de Goiânia que está servindo como local de “desova” de cadáveres. A repórter Manuela Queiroz perguntou a uma moradora do setor se ela ficava com medo. E, mais uma vez para meu espanto, ela disse que não, porque os crimes não acontecem com gente do bairro. E ainda acrescentou: “Quando a gente vê os urubus voando num lugar, a gente até já sabe o que é. Daí, chama a polícia”. (A que ponto chegamos! Desculpem, mas não acho que isso é normal).
Mas o auge dos banhos de realidade que venho tomando foi ontem. Estava eu, em casa (dessa vez não fui eu quem editou a matéria) assistindo a entrevista feita por Fernanda Arcanjo com a namorada de Mohamed d’Ali, que matou e esquartejou a inglesa Cara Burke. A namorada, Hellen Victoy, anunciou que vai se casar com o assassino confesso no fim do ano. Até aí, tudo bem, problema dela! Mas quando a moça foi perguntada se ela não acha que Mohamed é um monstro, ela veio com essa resposta: “Errar todo mundo erra, matar todo mundo mata. Quem nunca errou? Se você está no trânsito e atropela uma pessoa, matou do mesmo jeito. Agora, só porque ele esquartejou?” (daí eu pensei: Santo Deus, em que mundo eu estou? Será que meu cérebro foi muito afetado pelo colégio de freiras que eu estudei? Porque eu não acho que matar é normal!).
Mas a entrevista ainda não tinha terminado. A moça ainda disse que acha que o crime cometido pelo namorado só teve tanta repercussão porque ele matou uma inglesa loira dos olhos azuis, porque se fossse uma “pessoa de cor, do cabelo ruim” (são palavras dela) ninguém estava nem aí. Coisas assim não podem cair na normalidade. Encontrar corpos não é normal, tirar a vida de alguém não é normal. É só pensar que isso poderia acontecer com uma pessoa que amamos. Os seres humanos deveriam exercitar mais a compaixão ou daqui uns tempos estaremos contando quantos já matamos.


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quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Uma tela em branco

Às vezes podíamos ter a chance de reformular a nossa vida como uma tela em branco. Um dia olharíamos para o quadro e se a pintura não estivesse legal, era só jogar o balde de tinta branca, ou comprar uma nova tela.
Aí, sim, começaríamos outro esboço. Um outro desenho, quem sabe. Algo diferente de antes ou apenas aprimoraríamos o anterior. Podíamos também mudar as cores ou simplesmente mudar o tom. No estremo da mudança, podíamos até mudar os tipos de tintas.
Re-fazer, re-montar, aprimorar, melhorar, mudar...

Mundo, mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não uma solução.
Mundo, mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.” (Carlos Drummond de Andrade)


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segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Ainda me lembro do almoço de sexta

O Almoço dos Barqueiros, Auguste Renoir


Pra onde será que olha a moça no centro do quadro?
Em quem ela pensa?
Será que o pensamento é correspondido?
Ou será que ela tenta simplesmente esquecer?
Vai ver que ouviu algo que não queria durante aquele almoço e agora vai ter que mudar.
Vai ver ela só se sente diferente.
Talvez ela só queira fazer parte.
E se ela quiser algo novo?
E se ela estiver pensando no que fazer?
Ficar ou partir?
Pra onde?
Será que um dia temos respostas?
Ou certezas são pra poucos?


Obs.: Leia ouvindo Janta, de Marcelo Camelo. http://www.youtube.com/watch?v=8jHb7qzZRvc

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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Corpo fatiado falante ou Como sair da rotina

Imagine que você vai visitar uma amiga e quando chega ao quarto se depara com o corpo dela fatiado dentro de um saco plástico. Pânico total, né? Mas o pior ainda está por vir: o corpo fala com você. Não, não é alucinação. O corpo fala, não o espírito, alma de outro mundo ou algo assim, a matéria fala.
Deve estar pensando: O corpo pede ajuda para punir o culpado pelo crime ou quer um justiceiro que se vingue do homicida responsável por aquele “fatiamento”. Certo? Errado! Na verdade o defunto, a defunta no caso, quer ajuda para arranjar um outro corpo em um estado melhor. Bem melhor!
Tudo bem, tudo bem. Eu explico direito essa história pra você que está achando isso sem pé nem cabeça. Vamos por partes. Na verdade estou falando do curta-metragem “Semi-novo”, de Rodrigo Valle e Marcos Vinícius Brito. Mais aliviado agora? Vamos ao filme então.
“Semi-novo” conta a história de Marcos (Pedro Plaza), um rapaz super, hiper, mega certinho. As gavetas dele são muito arrumadas, roupas dobradas com o mesmo tamanho e meias enroladas exatamente iguais. Ele chega todos os dias à padaria às 7h55, em ponto, pede sempre a mesma coisa, as mesmas excentricidades como mixto quente tostado só nas bordas.
Marcos não faz nada que não esteja programado. Rotina, meus caros, muita rotina. O moço tem uma agenda onde anota todos os compromissos, horário por horário, chega ao extremo de escrever os minutos certinhos, certinhos. Entre os compromissos do dia de Marcos estão visitar a amiga Gabi e o grupo de estudos.
Mas a visita dará uma guinada na vida de Marcos. Como vocês já sabem, ele encontra a amiga fatiada dentro de um saco e, pelo bem da amizade, sai com ela para arranjar um corpo novo ou melhor dizendo, semi-novo.
Ele leva o saco em um carrinho de mão e assim eles conversam pelo caminho. Conversas que vão desde o que é normalidade até como Marcos se refugia do mundo utilizando aparatos tecnológicos como um MP4.
O senhor certinho leva a amiga para o hospital. Diante do absurdo daquilo, ela diz que não quer se transformar num Frankenstein. Então, eles seguem rumo ao IML. Lá, o atendente (Marcos Lotufo) ajuda os amigos a acharem um corpo semi-novo para Gabi.

(Aviso importante: Se você não quer saber o fim do filme, pare de ler aqui).

Ela escolhe, mas não vemos o corpo escolhido. Corte, mudança de plano e já vemos os dois amigos andando na rua. Só que ao lado de Marcos está um homem (com roupa de quem saiu do IML) falando com a voz de Gabi. Ela/ele agradece o amigo pela ajuda e diz que vai sair para aproveitar as novas possibilidades do corpo.
Diante de tudo aquilo, Marcos joga o MP4 e a agenda no lixo. Um homem passa e atira um toco de cigarro no chão. Marcos pega o cigarro e sai fumando.
Por que não?
É claro que a situação do filme é exagerada e nunca vai acontecer. Mas, por que não? Às vezes precisamos mudar e ficamos esperando grandes coisas acontecerem na nossa vida. Talvez não precisemos. Talvez é só uma questão de encarar a realidade de frente, ver o outro lado da balança e se perguntar: Por que não?

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domingo, 9 de novembro de 2008

Uma questão de escolha

Era só uma bonequinha graciosa e triste na vitrine da loja de brinquedos. Via as pessoas passarem pra lá e pra cá sem que a levassem para casa. Sonhava com uma menina em especial. Uma menininha que sempre passava ali na porta e ficava admirando-a.
Às vezes a menina entrava, abraçava a boneca, conversava com ela. Aqueles eram dias doces, mas quando a criança não vinha, a boneca ficava ali com o olhar perdido olhando para a rua e esperando. Era uma espera paciente e cheia de ilusão.
A bonequinha ficava a pensar que um dia poderia estar definitivamente nos braços daquela que havia escolhido como dona. Nos sonhos a menina a pegava pelos braços, rodopiava, dava-lhe beijos e a boneca dormiria nos braços dela. Seriam dias felizes.
Sonhou, sonhou a boneca. Contentava-se com nesgas de amor, restos de tempo, pequenas conversas ao pé do ouvido e olhares fortuitos pela vidraça.
Um dia, perto do Natal, a menina entrou pela porta da loja. A boneca viu que havia algo diferente naqueles olhos e um sorriso ainda mais iluminado. A bonequinha desejou ardentemente que aquele fosse o dia em que ela sairia dali para sempre nos braços da que havia escolhido para dona.
A menina entrou correndo, pegou uma outra boneca e disse com todo amor: “É essa!”. A mãe pagou, a dona da loja fez o embrulho e a menina saiu saltitando com o novo brinquedo. Não sem antes dar um beijo na testa da boneca da vitrine.
A boneca ficou atônita. Naquele dia o coraçãozinho dela de boneca chorou por ter sido preterida. Não queria saber como era a outra, não queria saber quais motivos haviam norteado a decisão da garota. Ela só se sentia como aquela que não foi escolhida. E sentir-se assim era muito ruim.
Não quis mal a menina por aquele ato, era só uma questão de escolha. Pode ser que no próximo Natal, quando o outro brinquedo estivesse gasto, a boneca da vitrine fosse escolhida. Pode ser que outra menininha a escolhesse. Muitas coisas podem acontecer e as bonecas não podem prever o tempo.
Naquela noite ela decidiu não sonhar mais. Fechou os olhos e só dormiu.

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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Vento

Naquela noite em que não dormiu sonhou com uma tarde quente. Um vento fraco roçava em seu rosto. E ele estava lá ao lado dela, como há muito tempo não faziam. Mas dessa vez era algo novo. Naquela tarde eram só os dois no meio de uma multidão. Mesmo assim, estavam sós com seus pensamentos perigosos. Ele cantava e falava de filmes. O tema era o vento. E era pelo vento que ela queria ser levada, juntamente com ele pra muito longe dali, pra algum lugar que não existisse culpa.
- Sugestivo, não?
- ...não nos deixeis cair em tentação...
- Mas não deixa de ser sugestivo, não?
Toda a pele dela, os poros, os cheiros, os sentidos que ficam escondidos disseram secretamente, os desejos inconfessáveis responderam: É tudo o que mais quero.

“Vivia a te buscar
Porque pensando em ti
Corria contra o tempo
Eu descartava os dias
Em que não te vi
Como de um filme
A ação que não valeu
Rodava as horas pra trás
Roubava um pouquinho
E ajeitava o meu caminho
Pra encostar no teu”

O vento continuava a soprar em outro lugar.

Música: Valsa Brasileira, Chico Buarque e Edu Lobo.

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sexta-feira, 31 de outubro de 2008

A tortura de Eléia


Foto: Divulgação da Peça
Mais uma vez Os Ciclomáticos esteve na capital para participar do Goiânia em Cena. Esse ano o grupo carioca apresentou “A corrente de Eléia”, com direção de Ribamar Ribeiro. A peça fala sobre tortura.
Eléia foi torturada durante a Ditadura Militar. Agora, ela sofre um outro tipo de tortura: aquela dos que não conseguem esquecer. Ela e o marido vivem afastados da cidade e ela tem medo de tudo, até mesmo dos que batem na porta.
E é pela porta que entra o fantasma de Eléia. O ex-torturador está ali ao seu alcance. Será realidade ou mais um dos pesadelos da ex-torturada? Luzes acendem e se apagam, barulho, muito barulho, Eléia gira frenética em torno das grades que a prendem, gritos.
- Posso lhe chamar de senhora ou seria muito enigmático?, é a frase que a faz reconhecer o antigo carrasco.
- Posso lhe chamar de senhora ou seria muito enigmático? Posso lhe chamar de senhora ou seria muito enigmático?
Eléia sucumbe. Começa a relembrar os Anos de Chumbo. Como foi arrancada de casa, assim como num aborto, a mãe gritando. As torturas, a gota d’água que era o único barulho que ouvia na cela. Chutes, muros, estupro, como arrancaram suas unhas. A dignidade humana reduzida a uma mulher que come a comida cuspida da boca do carrasco.
- Eléia, acorda! Eléia, acorda!, o marido grita do lado de fora da cela.
Realidade ou pesadelo? Será que as correntes que prendem Eléia são psicológicas ou ainda estão nos pés dela?
Para montar “A corrente de Eléia” Os Ciclomáticos tiveram ajuda do grupo Tortura nunca Mais, do Rio de Janeiro. Talvez, por isso, o ambiente do espetáculo seja tão perturbador. Tudo incomoda, também sofremos com Eléia. Os ruídos, a gota de água que não pára de pingar, as sessões de tortura, muito realista.
O cenário é uma grade em forma de círculo. Dentro há escadas móveis e ainda uma parte elevada onde a mulher se senta de vez em quando. O que desfavorece é a proximidade com o público que, no Martim Cererê, teve que se contorcer para ver as cenas que eram feitas no chão.
Os atores Fernanda Dias, Renato Neves e Júlio César Ferreira se mostraram muito bem afinados em suas atuações. Realmente conseguem passar os horrores vividos por quem foi torturado.

Curiosidades:
* O filósofo Zenão de Eléia (considerado o criador da Dialética) viveu na cidade de Eléia entre 464/461 a.C. Por conspirar contra o governo, ele foi torturado e morto, já que não revelou os nomes de seus comparsas.
* Os Ciclomáticos apresentaram “Sobre Mentiras e Segredos” em 2007 no Goiânia em Cena.



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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Meu primeiro amor

Esse último fim de semana assisti, dentro da programação do Goiânia em Cena, um documentário chamado “O Tablado e Maria Clara Machado”, de Creuza Gravina. Como o nome já diz, o filme fala sobre Maria Clara Machado, que foi uma dramaturga brasileira que escreveu várias e importantes peças teatrais infantis. São delas textos como “Pluft, o fantasminha”, “A menina e o vento”, “A bruxinha que era boa” e “O cavalinho azul”.
Fiquei muito emocionada com o filme porque lembrei da minha infância. A primeira peça que assisti foi “Pluft, o fantasminha”. Eu deveria ter cinco ou seis anos e a escola nos levou para o teatro São Joaquim para assistir. Gostei tanto que ainda me lembro da história do fantasminha que tinha medo de gente. Quando as cortinas se abriram surgiu um Pluft assustado que perguntava pra mãe: “Mamãe, gente existe?”. Eu ficava olhando aquilo e pensando que eu é que tinha medo de fantasma!
Adorei a mãe que ligava pra prima Bolha no telefone 000-0000 e ficava um tempão conversando. Ela também fazia pastel de vento com suco de já acabou. Naquela idade eu também queria o lanche do Pluft.
Me lembro de ter assistido “Pluft, o fantasminha” mais uma vez no ano seguinte com a escola. Não sei se foi aí que começou a minha compulsão por assistir peças de teatro mais de uma vez (isso para não dizer 4, 5, 6 vezes), mas com certeza meu amor por teatro começou com aquela peça.
Alguns anos depois, quando eu estava na terceira série, o Adércio, diretor de teatro da escola (com quem eu faria teatro na minha adolescência) precisou de algumas crianças para fazer figuração em uma peça que ele montava com os alunos do segundo grau. Lá fui eu me vestir de bichinho e ficar no canto da cena. Me lembro do ensaio em que as crianças participaram e era um tal de narradora pra cá, narradora pra lá. Eu não sabia direito o que significava narradora da peça, mas achava que devia ser alguém importante.
Depois da peça, resolvi fazer teatro com meus vizinhos. Reunimos várias crianças, bolamos uma peça que se passava numa floresta e tinha a briga de uma bruxa e uma fada. Eu, que não queria aparecer , e como era a mentora intelectual da brincadeira, dirigia a peça, mas ser narradora era mais chic. Então, fiquei sendo a narradora do teatro, mesmo não narrando nada.
Ensaiamos semanas até chegar o dia de apresentar. Convidamos as pessoas da rua e representamos no quintal da minha casa, debaixo do pé de abacate. Lembro que a música final começava assim (cantada com todos de mãos dadas):
“A bruxa virou amiga dos homens e dos animais...”
Para nós foi um sucesso, mas as mães acharam meio curto. Aí, resolvemos fazer um show de calouros pra prolongar um pouco mais o espetáculo.
Depois disso, fizemos mais uns dois teatros. Mas paramos por falta de locais para apresentar e incentivos familiares. Mas meu amor por teatro não morreu, muito pelo contrário, só aumentou...

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sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Respeitável público, com vocês os Acroloucos!


Foto: Júlia Mariano


Debaixo de uma sombra do Bosque dos Buritis eles não precisavam de muito para alegrar uma platéia de diferentes faixas etárias. Nariz vermelho, sapato grande, roupa colorida e cara pintada. Vendo pessoas assim logo de manhã o dia fica até mais bonito.
Eles entram ao som de:
“Uma pirueta
Duas piruetas
Bravo, bravo!”
Uma fila de palhaços de todos os tipos saltando, fazendo piruetas, cambalhotas, brincadeiras, caras e bocas. Um palhaço faz de tudo para que o outro caia, tropece, a cadeira é tirada quando um vai saltar de costas e cair sentado... tudo para o público morrer de rir. E por falar em rir, tinha uma velhinha do meu lado que se divertiu mais que qualquer uma criança da platéia.
“E tomba de bumbum
Que a patota
Grita mais um”
E se os palhaços saem de cena, logo entra o Maneco Maracá, que comanda o Circo Lahetô, pra chamar a próxima atração...
“Seu palhaço
Olha o público
Cansado de esperar
O espetáculo não
Pode parar”
A menina dos bambolês: sete de uma vez só! “E alguém aí da platéia quer fazer como ela?”. Ninguém quis. Os garotos em monociclos. A disputa dos palhaços para ver quem tem o maior carrinho. E se o som estraga, o palhaço toca tambor ao vivo mesmo.
“Que a moçada
Vai pedir bis
Que a moçada
Vai pedir bis”
Mas o melhor foi o número das facas. Chamaram um homem da platéia (acho que ele nunca tinha visto esse número antes e não sabia que era uma brincadeira) e o amararam numa tábua. Com os olhos vendados, ele não podia ver que as facas não eram atiradas e sim colocadas por outro palhaço na tábua. Imaginem a cara dele quando viu uma faca logo embaixo das pernas dele!
“Uma pirueta
Uma cabriola
Uma cambalhota
Não tô bom da bola
E o pessoal
Delira...
Maxipirulito...
Ultravioleta...
Bravo, bravo!”

Espetáculo: Acroloucos, do Circo Lahetô.
Música: Piruetas, de Chico Buarque.

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quinta-feira, 23 de outubro de 2008

As aulas de Biologia ou disputa das canetas

Quando eu estava na quinta ou sexta série a aula preferida de 10 entre cada 10 alunas da minha turma era a de Biologia. Não que todas nós tivéssemos um surto de simpatia pelo conteúdo daquele ano, ou estivéssemos interessadíssimas em saber o que provocava cada doença, ou os órgãos do corpo humano, ou seja lá o que os alunos dessas séries estudam em Biologia. O interesse era um moreno alto, olhos verdes e cabelo preto, de óculos (diga-se de passagem) que nos dava aula.
Eu o achava bonito, mas ao mesmo tempo achava que a distância que separa uma aluna de um professor era grande demais. Já muitas colegas não pensavam assim. Era engraçado, quando não era patético, elas dando em cima dele. Faziam de tudo para chamar a atenção. Lembro de uma que escreveu poemas românticos numa prova dele.
O mais engraçado era a disputa que tinha toda aula dele. É que o moço, muito esquecido (para não dizer que ele gostava de ver o circo pegando fogo), esquecia a caneta em casa todos os dias. Aí já viu, né? Uma sala de aula com quase trinta pré-adolescentes diante de um professor bonito e desprevenido de material para dar prosseguimento à aula... Todas eram tomadas de um sentimento de bondade para com o próximo e, aproveitando que estudávamos num colégio de freiras, íamos ajudar o moço e praticar a boa ação do dia que nos garantiria um lugar no Paraíso. Todas queriam emprestar a caneta pra ele. As canetas eram enfileiradas uma à uma na mesa dele e ai quando não usava a caneta de alguém!

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segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Alguém me explica?

A imprensa, tanto escrita quanto televisiva, não pára de noticiar a precariedade dos Conselhos Tutelares de Goiânia. Nos seis conselhos da Capital falta de tudo: materiais de limpeza, mobiliário, computadores com Internet, telefones, carros e gente para trabalhar.
Segundo a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, que trata do Estatuto da Criança e do Adolescente, Artigo 131: “O Conselho Tutelar é órgão permanente e autônomo, não jurisdicional, encarregado pela sociedade de zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente, definidos nesta Lei”. E, mais adiante, no Parágrafo único diz: “Constará da lei orçamentária municipal previsão dos recursos necessários ao funcionamento do Conselho Tutelar”.
A TV Anhanguera fez uma entrevista ao vivo com o Secretário Municipal de Assistência Social de Goiânia, Walter Pereira da Silva, sobre o assunto. Ele disse que o problema dos carros já está resolvido, que os veículos chegam até o fim da semana (aguardemos). Quanto ao mobiliário, disse que não sabe o que está acontecendo, porque os Conselhos já foram reformados e ganharam móveis novos (contrariando tudo o que vimos na imprensa nos últimos tempos).
Mas o pior viria quando perguntaram ao nosso digníssimo Secretário como ele explicava a falta de pessoal para trabalhar no Conselho da Região Noroeste. (Deixa eu explicar uma coisa antes da resposta dele: além dos conselheiros, um Conselho Tutelar precisa de no mínimo um psicólogo, um advogado e um assistente social para funcionar.) Então, ele respondeu: “Só falta psicólogo e assistente social”.
Ah, se só falta psicólogo e assistente social tudo bem, né?

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domingo, 12 de outubro de 2008

Será que gente ruim é feliz?

Fonte: Internet

Renato Russo, na música “Eu sei” diz:
“Um dia pretendo
Tentar descobrir
Porque é mais forte
Quem sabe mentir”

Eu também pretendo. Fico aqui pensando porque será que pessoas que mentem, roubam e fazem tantas coisas más são tão fortes. É só pensar em tantos corruptos por aí, em traficantes milionários, em pessoas que subjugam as outras.
Dos trinta e dois vereadores goianienses que votaram a favor de três salários extras anuais, dez foram reeleitos, inclusive o autor da idéia. Todos os dias, milhares de pessoas usam de malandragem para conseguir alguma coisa, o que já até ficou famoso como “o jeitinho brasileiro”. Crianças são espancadas, crianças praticam bulling, pessoas são agredidas física e moralmente, roubos, assaltos, estupros, assassinatos.
E parece que nos acostumamos com tudo isso. Parece que até ouço uma amiga que diz: “É assim desde que o mundo é mundo”. É assim, mas será que devemos nos acomodar com essas situações?
Outra coisa que fico pensando é: Será que essas pessoas são felizes?
Não consigo imaginar na felicidade de alguém corrupto desfilando com seu carro importado enquanto passa ao lado de pessoas que vivem nas ruas e não têm o que comer. Não consigo imaginar a felicidade de alguém que deita para dormir e pensa que matou alguém naquele dia. Não consigo imaginar na felicidade de alguém que causou mal a outra pessoa.
Será que gente ruim é feliz?

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segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O Desafinado

Foto: Divulgação

Eu poderia contar muitas coisas sobre “Os Desafinados”, filme de Walter Lima Jr. Poderia falar da trilha sonora que é maravilhosa com toda aquela Bossa Nova; talvez valeria a pena contar sobre filmes feitos dentro do filme pelo cineasta Dico (personagem de Selton Melo) e a referência que ele faz a nomes do cinema como Dib Luft e Antonione; escreveria sobre que quero ser como a Glória (personagem de Cláudia Abreu) quando eu crescer. Ela, depois de descobrir que Joaquim é casado se vinga tomando banho de banheira na frente dos amigos dele; poderia falar de como as cenas do Golpe Militar de 1964 são bem produzidas. Na verdade, havia muita coisa para se falar, já que gostei bastante do filme (tirando algumas coisinhas como a voz do playback da Cláudia Abreu), mas não vou escrever sobre nada disso. Aliás, muito já foi escrito sobre o filme.
Me detenho noutro assunto:
Ele tem cabelo liso, preto, um pouco grande, barba por fazer ou cavanhaque, óculos redondo estilo John Lenon e é graciosamente desafinado. O nome? Joaquim (Rodrigo Santoro). É um dos músicos de “Os Desafinados”. Deixa no Brasil a mulher grávida e vai com a banda para Nova York. Lá, quando passeava pelo Central Parque ouve uma música conhecida tocada na flauta. O moço, munido do violão, acompanha a desconhecida que toca a flauta e canta ao mesmo tempo: “Copacabana, princesinha do mar...”. Olhos nos olhos, aí já viu, né? Não dá outra, se apaixonam.
Ela é Glória, uma brasileira moderna que mora sozinha em Nova Iorque. E é no apartamento dela que Os Desafinados ficarão durante o período em que permanecem nos Estados Unidos.
Tá tudo muito bom, tudo muito bem. “Abraços e beijinhos, e carinhos sem ter fim”. Maior chamego entre Joaquim e Glória até que a mulher dele liga para desejar feliz aniversário: Surpresa! A vida não é como comercial de margarina e muito menos como conto de fadas.

Um homem, duas mulheres, o amor, a paixão descontrolada, a distância, o trabalho...

“Você com a sua música esqueceu o principal
Que no peito dos desafinados
No fundo do peito bate calado
Que no peito dos desafinados também bate um coração”. (Tom Jobim e Newtom Mendonça)


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sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Pingue-Pongue 2

Uma carta...
A de Euforia.

Um perfume...
O de abraço apertado.

Uma pessoa bonita...
Alguém bom.

Algo sem preço...
Uma boa conversa.

Uma sensação...
Dos movimentos de uma dança.

Uma felicidade...
Descobrir-se querido.

Um talento...
Para fugir da normalidade.

domingo, 28 de setembro de 2008

Sobre o Amor - teatro


Foto: Divulgação
Tochas de fogo traçam um círculo no centro do palco. Quando sobem, iluminam um rosto pintado e as cortinas vermelhas que servem de cenário. Quando descem, iluminam as sapatilhas daquele que descobrimos palhaço. Enquanto escutamos algo que fala de amor.
Dois palhaços, um amor. Um amor que começa assim mesmo, de cara pintada, alma lavada e coração desatento. Eles se encontraram num baile de carnaval. De máscaras, Mário não percebe que beija um homem. Quando descobre, reluta, diz que não é mulherzinha. Mas, já é tarde. Se apaixonaram.
Uma dessas paixões que não tem explicação, que começa ali mesmo, sem mesmo saber o nome do outro e se descobre maior cada vez que se encontram e se conhecem mais um pouco. Tem explicação para o amor de dois homens? Eles se perguntam... Aí, só restam duas coisas, ou deixar que o tempo acabe com ela ou esperar que ela chegue em algum lugar.
Os dois palhaços, Pedro e Mário se entregaram ao amor. E a vida deles se encheu de:
“- Pedro, eu te amo!
- Eu sei disso, palhacinho!”
Pedro era palhaço de circo, tinha o desejo e a necessidade de girar o mundo. Mário era palhaço de rua, pés e raízes fincados num lugar à espera de Pedro. Quando as turnês os separavam, só lhes restavam as cartas. Mas até que ponto poderiam dar publicidade a esse sentimento?
Um dia, sem saber bem onde começou, o ciúme e a tristeza invadiram aquele lar que antes era só de amor. E o relacionamento dos palhaços foi murchando, murchando até que Pedro decidiu deixar Mário. Não sem sofrer, não sem quase morrer de amor, não sem ter o coração em pedaços. Mas ele foi.
Mário começou a beber e não teve mais notícias de Pedro. Não sabia se tinha sido um acidente ou até mesmo a greve dos correios. Desapareceu, sumiu, sem notícias...
Para os pessimistas talvez a história terminaria aí, os otimistas torceriam por um final feliz, para outras pessoas, tanto faria. Mas o final do espetáculo só vai saber quem assistir “Sobre o Amor”, da Cia. Trupicão. A direção e o roteiro do espetáculo são de Sandro Freitas e atuação de Luca de Oliveira e Wesley Maurício. O desenho de luz é de Cláudio Galvão, que por sinal ficou maravilhoso.

P.S: Preparem o lenço!

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quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Pessoas são presentes

Acho que as pessoas são como presentes. Primeiro vemos o embrulho, que pode ser feio ou bonito, depende do gosto. Há os grandes, os pequenos, os médios, de diversas formas. À medida que vamos nos conhecendo, despimos os embrulhos pouco a pouco. Alguns são melhores que esperávamos, outros nos decepcionam e ainda existem aqueles na medida do que esperávamos.
Nós, seres humanos, temos a capacidade de nos doarmos. E o nosso valor, quem dá somos nós mesmos. Alguns se comportam como presentes de plástico, desses encontrados em qualquer loja de 1,99. Dão-se a qualquer um, se prestam a sentimentos tortos, palavras torpes e emoções desencontradas.
Alguns ainda são feitos de massa de modelar. Poupam-se de pensar, se transformam dependendo da ocasião e seguem sempre pelas mãos dos outros. Há presentes feitos de madeira. São duros, não se modificam por nada e acham que estão sempre certos.
Existem muitos presentes por aí, com capacidade de se doarem ou não. Presentes que vem e ficam, outros e simplesmente passam por nossas vidas. Às vezes sabemos reconhecê-los e outras vezes, os machucamos sem entendê-los. Mas, de todos os presentes, os que mais gosto são as jóias raras. São aquelas pessoas lapidadas pelo tempo, que se dão valores altíssimos e que sabem exatamente a que vieram e o quanto são boas (sem deixar que isso lhes suba a cabeça). Têm brilho raro e beleza ímpar, conseguem ser melhores que a embalagem.


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quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Palavras sem tradução

Ele era o projetor da única sala de cinema da cidade. Ela, a professora de línguas do internato para moças. Ela falava inglês, francês e espanhol. Ele, analfabeto. Algo os unia: o amor pelo cinema.
Todas as quintas-feiras ela assistia a matinê. Ele já sabia e ia esperá-la na porta do cinema. Ela chegava sempre 15 minutos mais cedo. Ele gostava de vê-la virando a esquina, vestido longo, cabelo preso rabo de cavalo, óculos, andava com passos tímidos e um sorriso encantador. Ela passava e o cumprimentava e a ele restava suspirar.
Ele estava apaixonado e ficava imaginando que ela era a mocinha de cada filme que projetava na tela. Ele era sempre o mocinho que a salvava dos piratas, que a buscava num carro luxuoso, que a levava para jantar na cobertura de um prédio de Nova York ou a convidava para dançar no baile de máscaras. Mas o que ele mais gostava era dos beijos.
Ele ficava imaginando como poderia conquistá-la e, um minuto depois, pensava que com certeza ela nunca olharia para alguém como ele, que nem sabia escrever. Uma tristeza invadia sua alma. Mas aquilo durava no máximo até a quinta-feira, quando ela vinha novamente. Quando ele a via sentia o coração acelerar, as pernas tremer e a mão gelava. Era uma sensação boa e ruim ao mesmo tempo. Como se ele não pudesse coordenar a si próprio.
Um dia, ao ver uma fita lá pela décima vez, teve uma idéia. Prestaria atenção nas falas dos filmes e decoraria o que o galã falasse na hora em que a mocinha mais se emocionasse. Então, ele falaria para ela. Assim, ela ia pensar que ele era estudado.
Chegou o novo filme. Daqueles bem românticos que fazia as moças saírem chorando do cinema. Ele pensou que era a hora de colocar o plano em prática. Escolheu uma cena e ficava repetindo o que o mocinho falava para a mocinha do filme. Mesmo sem entender o que era dito, via que a mocinha ficava tão feliz que beijava o mocinho.
Então, na próxima quinta-feira, tal qual o galã do filme, ele esperava a professora com uma rosa vermelha na mão. Quando ela o cumprimentou, como de costume, ele entregou a rosa e disse: “A gift for you”. Ela arregalou os olhos surpresa, abriu um sorriso, pegou o presente e disse alguma coisa que ele não entendeu. Mas pelo jeito ela havia gostado.
Naquele dia, ele ficou eufórico! O plano havia dado certo.
Na outra quinta-feira, ele a esperava: “Tu es très belle”. Ela olhou para ele de um jeito carinhoso, riu mostrando as covinhas do rosto, falou alguma coisa naquela língua que ele não conhecia e entrou. Daquele jeito ela ficou ainda mais linda.
Ele não conseguia parar de pensar na amada. Na outra semana, quando ela chegou, ele beijou a mão dela e disse: “Te echo de menos”. Ela, sem pensar muito, o beijou no rosto de tanta felicidade. E ele, ao sentir os lábios dela pensou que realmente a amava e que ela já fazia parte da vida dele.
Na sessão seguinte, o projetor estragou e ele não pode ir para a porta do cinema. Teve que consertá-lo. O filme começou atrasado. Da janelinha da sala de projeção ele viu onde ela havia se sentado. Toda hora ela olhava para trás, na direção em que ele estava. Ele, com o coração aos pulos, ficava se perguntando se ela o procurava.
A sessão acabou. Ele ajeitou tudo o mais rápido que pode e saiu correndo para ver se ainda a encontrava. A alcançou quando ela virava a esquina. Chamou por ela. Ela pareceu feliz ao vê-lo. E ele pegou a mão dela e disse como no filme: “Give me a kiss, darling”. Ela fechou os olhos e foi se aproximando dele. Até que o beijou. Ele sentiu que aquele beijo era melhor que todos os beijos dos filmes que havia visto.
Saíram dali de mãos dadas. Foram até o café da praça onde conversaram sobre cinema. Ela se mostrou muito simples, apesar de todo o estudo que tinha. Ao contrário do que ele pensava, ela não riu dele enquanto ele falava, muito pelo contrário, ela prestava bastante atenção. E até disse que ele era diferente de outros moços que ela conhecia que não sabiam tratar bem uma dama.
Sempre se viam às quintas-feiras e ele falava uma das frases que ouvia no cinema. Saiam depois para conversar no café da praça. E de tanto “Ma cherry”, “I love you”, “Sin ti no se vivir” e outras palavras que para ele só tinham tradução na expressão da mulher amada, o amor foi crescendo. Ele até resolveu comprar um anel de noivado para ela, mas esperava a melhor hora para entregá-lo.
Uma noite, ele resolveu dizer a ela: “C’est fini, c’est fini”. Ao contrário da mocinha do filme, que se atirou aos pés do mocinho, ela empalideceu e no rosto dela havia uma expressão de dor. Ela cambaleou de lado, se apoiou na mesa, olhou para ele como se fosse a última vez. Os olhos dela estavam cheios de lágrimas. Ela saiu correndo. Ele ainda tentou evitar, mas ela se foi.
Nos meses seguintes ele esperaria em vão pela amada na porta do cinema enquanto se perguntava o que teria dito. Dias tristes aqueles. A única coisa que restava era o anel que tinha comprado para ela e que não tivera a chance de entregá-lo. O levava sempre no bolso, na esperança de encontrá-la novamente.
Um dia, ele estava projetando um filme quando a viu chegar. Com certeza deveria ter chegado atrasada para não encontrá-lo. Ele saiu correndo, entrou na sala de cinema, sentou ao lado dela. Quando ela o viu, tentou sair, mas ele a segurou pelo braço:
“Preciso falar com você. Eu não sei nenhuma daquelas línguas que te falava. Não sei o que te falei. Não sei ler, nem escrever. Achei que o único jeito de fazer você gostar de mim era te dizendo o que os mocinhos dos filmes diziam. Então, eu treinava o que eles falavam e repetia pra você, mesmo sem entender. Queria que você soubesse que nunca quis te enganar é que eu te amo. Você é minha querida e não consigo viver sem você. Sinto saudades. Queria que você aceitasse esse presente, minha querida”.
Ela olhou para ele e começou a rir. Um riso misturado com lágrimas. Uma cara de felicidade. Ela aceitou o anel e o beijou como nos finais dos filmes.


Texto baseado na música “Tantas Palavras”, de Chico Buarque.

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quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Por que?

Ando achando que ter certezas nesse mundo é coisa rara. Estamos sempre a um passo de definir o resto de nossas vidas. Sempre sem saber qual a melhor decisão a tomar. E o pior, vivemos sem entender o por quê de algumas coisas.
Por que será que a faculdade que eu quero fazer fica tão longe do meu trabalho?
Por que será que quero fazer Mestrado mas não sei o tema?
Por que será que quero fazer especialização em Jornalismo Cultural sendo que não sei onde vou usar isso?
Por que será que gosto de arte e nasci num estado com vocação para bois e soja?
Por que será que não consigo me contentar?
Por que será que quero mudar de cidade?
Por que será que quero sair por aí devorando tudo?
Por que será que o homem mais interessante que conheço casou (e não foi comigo!)?

Ahhhhhhhh, livre-arbítrio que me confunde!


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domingo, 14 de setembro de 2008

Nada como um tempo após um contratempo

Nada como uma dor ou uma grande perda, ou os dois juntos, para nos mostrar algumas coisas. Acho que crescemos, e muito, com a dor. Acredito que muitas vezes somos privados das coisas ou pessoas que gostamos para que aprendamos algumas lições. Sejam quais forem as lições. Para que aprendamos a ser menos egoístas, darmos mais valor a vida, para que saibamos apreciar as coisas simples, enfim, cada caso com sua lição.
Digo isso porque o final de 2006 foi pra mim um grande final. Um namoro acabado, uma monografia que quase acabou comigo (que incluiu briga da minha orientadora comigo e bloqueio de escritor), um estágio (que eu adorava) no fim e a faculdade no último ano.
Tudo isso foi demais para a minha cabeça. Parei de comer e não conseguia dormir. Minha única vontade era chorar. O que mais pesava era a perda do namorado e tudo isso era agravado pelas outras coisas que estavam no final. Passei a achar que minha vida não tinha sentido sem aquela outra vida. Eu estava de luto e não tinha ninguém para enterrar. O mais difícil era quando eu acordava. Eu simplesmente pensava: mais um dia sem ele...
Daí, certa vez liguei para ele e ele me falou de uma moça que estava gostando. Aquilo doeu, nossa como doeu ouvi-lo falar com tanto carinho de outra. Chorei muito e decidi que seria a última vez que eu choraria por aquele motivo.
No outro dia, eu acordei e pensei: “Só por hoje eu não vou sofrer. Só por hoje eu não quero mais chorar”. E fiz de tudo para me sentir um pouco melhor. No outro dia, acordei e pensei: “Só por hoje eu não vou sofrer. Só por hoje eu não quero mais chorar”. E assim, fui acostumando com a coisa. E ao longo de tempos, eu já conseguia ser feliz automaticamente.
Depois disso, passei a valorizar melhor quem está ao meu lado. Aprendi a conviver comigo mesma e ficar sozinha. Aprendi a deixar os que amo irem, não sem sofrimento, mas com a certeza de que algumas pessoas simplesmente devem passar por nossas vidas e não ficar para sempre. Também aprendi que às vezes, o muito que alguém nos oferece é muito pouco e que não devemos nos contentar com isso. Agora, tento viver um dia de cada vez e faço daquele dia o dia mais feliz da minha vida porque ele pode simplesmente ser o último. E não costumo desperdiçar meu último dia de vida com falso moralismo, com medo de amar ou de dizer o que penso. E com tantas outras coisas que não compensam...
Como diria Chico Buarque:
“E nada como um tempo após um contratempo
Pro meu coração
E não vale a pena ficar, apenas ficar
Chorando, resmungando, até quando, não, não, não”.


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quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Pingue-Pongue

Um pó?
O de Meame, que pode ser usado no café da manhã, almoço ou jantar e nutre um amor. Se bem que adoro o pó de Pirim Pim Pim, usado pela Emília do Sítio do Pica Pau Amarelo, para sumir e aparecer em outro lugar.

O que compraria na farmácia se vendesse?
Paciência! Compraria logo uns dois frascos.

O que daria para a humanidade?
Compaixão em roll on e recomendaria o uso pelo menos uma vez por dia.

Antes de dormir?
Poema.

Acordar?
Com música.

Um jeito de nascer?
A noite e ouvindo música. Apesar de ter sido do contra e nascido no meio da tarde (um calor!).

Uma morte?
De tanto rir.

domingo, 7 de setembro de 2008

Seqüestraram a minha sogra

- Seqüestrei a sua sogra…
- Bem feito!, e ele desliga o telefone.
Com certeza ele havia ligado para o número errado. Tinha ligado para alguém que nem tinha sogra, só pode! Ligou de novo e ninguém atendeu.
Do outro lado, o rico empresário desligou o telefone e gargalhou enquanto pensava: Se isso for verdade, Deus ouviu as minhas preces!
Ele, sem perder tempo, e acreditando que alegria de rico dura muito, gritou para a mulher que se aprontasse e arrumasse também as crianças porque eles iriam passar a tarde no clube.
Ela se espantou e veio ver o que havia acontecido:
- Mas você não ia trabalhar essa tarde? Não tinha uns balancetes da empresa para analisar?
- Estive pensando que hoje é sábado e quero passar o dia com a família!
- Vou atender o telefone...
- Não! Deixa tocar. Vai que é alguém da empresa e estraga meu sábado de folga!
- Você está esquisito... Mas tudo bem... Pena que mamãe saiu e não avisou onde ia. Ela iria adorar ir ao clube conosco...
- Você e essa sua mania de colocar a sua mãe no meio de tudo!
- E você com essa sua mania de implicar com ela!
- Mas é claro, ela é uma peste!
- Não fale assim da minha mãe!
- Tudo bem, não vamos brigar por isso... Você não ficou feliz de sair comigo? Vá se arrumar...
Ela subiu as escadas em direção ao quarto. Nisso, chega o motorista pálido e sem fôlego:
- Doutor, o senhor não vai acreditar no que aconteceu! Fui levar a sua sogra na igreja e quando estávamos voltando para casa, seqüestraram ela! Eu sei que o senhor vai querer me matar, mas eu não dei conta de fazer nada para ajudar ela! Eles estavam armados, acho até que era escopeta, isso se não for bazuca!, falou com o exagero que lhe era característico.
- Acalme-se, já estou cuidando de tudo... Os seqüestradores já ligaram aqui para pedir o resgate. Mas eu queria te pedir uma coisa: sigilo absoluto. Não quero que você comente isso com ninguém. É que você sabe como minha mulher é apegada com a mãe. Acho que se ela ficar sabendo que a mãe foi seqüestrada por homens com bazuca, pode até enfartar. E você não quer que sua patroa morra, não é?
- Não, senhor. Claro que não... Mas, como o senhor vai explicar o sumiço da sua sogra?
- Vamos fazer assim: você vai dizer pra sua patroa que a mãe dela pediu para que você a levasse para o aeroporto.
- Pra viajar?
- É, é, pra viajar. E que ela não estava sozinha...
- Não?! E tava com quem?
- Com o namorado dela...
- Uai, não sabia que ela tinha namorado...
- Você só vai dizer isso pra sua patroa! Diga que a mãe dela viajou com o namorado, que por sinal era bem mais novo. Um rapazinho!
- Viajaram pra onde?
- Pra Paris!
- Paris?!
- É, Paris. Eles foram namorar em Paris porque ela ficou com vergonha de contar o namoro para a filha.
- O senhor tem certeza?
- Tenho! E não vá dizer outra coisa, hein!
E ficou repetindo baixinho:
- Tá certo... Pra Paris com o namorado novinho... Tinha vergonha... Aeroporto.
A mulher entrou no escritório:
- Já estou pronta. Agora só faltam as crianças.
- Acho melhor você se sentar. O motorista tem algo a dizer sobre a sua mãe.
- Mamãe?! O que aconteceu? Onde ela está? Aconteceu alguma coisa? Ai, meu Deus, foi o coração?
- Calma querida, você vai ter que ser forte. Vamos lá, fale pra ela. Diga o que a mãe dela aprontou.
O motorista, com os olhos no chão diz:
- Viajou.
- Viajou?! Mamãe não viajaria sem me falar...
- Ela foi pra Paris com o namorado...
- Namorado?! Que namorado? Ela sempre amou papai e desde que ficou viúva jurou que nunca mais amaria outro homem!
- Eu sempre te falei, mas você não quis me escutar... Essas saídas da sua mãe não estavam certas. Esse negócio de ficar indo na igreja e no cemitério toda hora não tava certo. Com certeza ela ia encontrar o amante...
- Não pode ser...
- E tem mais, o motorista disse que o amante dela é um rapazinho, deve ter idade pra ser neto dela! Um escândalo!
- Meu Deus!
- Se essa história se espalhar, as portas da sociedade vão se fechar para a nossa família. Vão apontar você e dizer: Tá vendo, aquela é a filha daquela velha safada que fugiu com o rapazinho!
- Isso não pode acontecer! Não tenho culpa! Nunca achei que ela fosse capaz...
- Pois é, então, o melhor é você não comentar isso com ninguém.

A mulher, com medo de ser banida das festas da alta sociedade por causa da mãe que fugiu com o rapazinho, ficou de bico calado. O marido a convenceu a passar uns dias com as crianças na casa de praia para se refazer do baque. Na verdade, ele queria era tempo para resolver o problema, ou melhor, dar um jeito da sogra ficar onde quer que ela estivesse de vez.

O seqüestrador liga novamente:
- Estou com a sua sogra, se você não me pagar um milhão de reais, eu vou meter bala nela!
- Não dou um centavo por essa velha! Você está me fazendo um favor!
Desliga o telefone.

Nos próximos dias os seqüestradores iriam entender o porquê de tanta felicidade daquele homem ao ver a sogra seqüestrada...

Alguns homens vigiavam a mulher. O cativeiro ficava em uma chácara afastada da cidade.
Logo cedo, eles acordam com a velha batendo na porta do quarto:
- Mas vocês não tem vergonha não? Que bagunça é essa? Achei que esse tal de crime fosse organizado, mas vejo que isso aqui é uma bagunça só! Primeiro: eu não devia estar amarrada, amordaçada e não sei mais o que, como nos filmes?
Eles se entreolham sem acreditar no que estão ouvindo...
- Eu tô falando com vocês!
- Tia...
- Tia? Desde quando eu sou sua tia? Por acaso você é filho da minha irmã? Sua mãe não te deu educação, não? Me chame de senhora!
Os outros riram...
- Vocês estão rindo de quê?
Eles até se sentiram intimidados. Ela conseguia ser mais linha dura que o chefe.
- Desculpa, é que nois conversamo aqui e achamo que a senhora não ia precisá de algema não, já que tamo longe da cidade e a senhora não faz o estilo que vai fugi...
- Mas é uma desorganização mesmo! Quem é o chefe desse seqüestro?
- Ele num fica aqui não, tia. Ops, desculpa, senhora!
- Eu vou ter uma conversa muito séria com ele quando ele vier aqui...
- Sim, senhora...
- Cadê meu café da manhã? Vou já avisando que todos os dias eu acordo pontualmente às seis horas da manhã e eu quero o meu café na mesa. E já vou avisando que só como se o pão estiver fresquinho!
Eles continuavam se olhando incrédulos.
- E tem mais! Eu quero essa casa limpa! Isso aqui é um chiqueiro ou uma casa? Me recuso a ficar numa casa nesse estado. Meu genro é muito rico, vai pagar vocês bem. Então, me tratem bem! Aliás, quanto é que vocês estão pedindo de resgate?
- Um milhão...
- Nossa! Sou tão barata assim?

E nos próximos dias, ela continuou ditando as regaras da casa como um general. Em uma semana, os seqüestradores já lavavam e passavam. Isso sem dizer que limpavam o cativeiro todos os dias e até buscavam flores para enfeitar a casa. Isso, para que a mala sem alça da sogra lhes desse sossego. E é claro, também pensavam que aquele sacrifício valia um milhão.
Passaram-se semanas e nada do genro pagar o resgate. Sempre que ligavam para ele, a mesma resposta: - Fiquem com ela e façam bom proveito!
A sogra começou a gostar dos seqüestradores e, com isso, passou a lhes ensinar como organizar melhor as atividades ilícitas que praticavam. Percebeu que eles eram meio fraquinhos e quem ganhava mesmo era o chefe. O tal chefe que não corria risco e nunca aparecia. Ela então, mesmo sem ter comandado uma boca de fumo na vida, começou a dar aulas de como eles podiam lucrar com o tráfico de drogas sem ter que pagar porcentagem para o chefe. Fez uma planilha de custos para controlar o dinheiro obtido com os assaltos praticados pelo bando. Provou, por A mais Z, que era um absurdo eles seqüestrarem alguém, correrem risco de levar um tiro ou serem presos, ficarem guardando o cativeiro e ainda assim receber menos que o mentor intelecto daquele crime.
Os bandidos, então, começaram a se rebelar contra o chefe.

Um dia o empresário recebe o telefonema:
- Pelo amor de Deus, recebe sua sogra de volta! Além dela transformar minha quadrilha num bando de mariquinhas que fica limpando a casa e colhendo florzinhas, ela quer me derrubar! Só falta meus homens me pedirem carteira assinada, com direito a férias, décimo terceiro e adicional por risco!
- Tá vendo, mexe com a família dos outros! Quando você mandou seqüestrar essa mulher, não sabia no vespeiro em que estava se metendo! Por dez anos ela transformou a minha vida num inferno. Agora, ela é problema seu!
- O pior é que se eu decidir matá-la, minha quadrilha é bem capaz de se voltar contra mim...
- Que problemão, hein?!
- Recebe ela de volta...
- Quanto?
- Quanto o que?
- Quanto você me paga para receber a megera de volta?
- Ficou louco? O seqüestrador aqui sou eu!
Desligou o telefone...

Uma semana depois toca o telefone:
- Eu pago o dobro do preço do resgate pra você tirar essa mala sem alça daqui!
- Fechado! Mas só a aceito de volta depois de receber o dinheiro e verificar se não é falso...


Texto baseado na música “Seqüestraram a minha sogra”, de Bezerra da Silva.


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quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Considerações de uma quinta-feira

"talvez no fundo espere alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar,
mas pra que sonhar se dá o desespero de esperar demais"

Quero apertar o botão do foda-se
porque tenho medo de esperar trens que não virão
porque quero continuar amando
porque quero ser amada
porque tenho medo de ser esquecida por aqueles que gosto
porque tenho medo que palavras ácidas sufoquem meus sonhos
porque não gosto de rotina e temo que um dia ela me paralise
porque quero ser livre para falar dos meus sentimentos
porque não quero ser taxada daquilo que não sou
porque quero que entendam que não estou apaixonada, é que já nasci assim, nesse estado.

domingo, 31 de agosto de 2008

Soneto de domingo

Abri o livro ao acaso:

"TALVEZ ferido vou sem ir sangrento
por algum dos raios de tua vida
e a meia selva me detém a água:
a chuva que tomba com teu céu.

Então toco o coração chovido:
ali sei que teus olhos penetraram
pela região extensa de minha pena
e um sussuro de sombra surge só:

Quem é? Quem é? Mas não teve nome
a folha ou a água escura que palpita
a meia selva, surda, no caminho,

e assim, amor meu, soube que fui ferido
e ninguém falava ali senão a sombra,
a noite errante, o beijo da chuva."
(Pablo Neruda)

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Na quarta esperando acordar na segunda

Só estou num daqueles dias em que queria acordar já estando na segunda-feira
Sabendo do que se passou no fim de semana
Se deu tudo certo ou se esperei demais
Se é hora de rir ou chorar
Talvez eu acorde cantarolando alguma música bem bonita
Talvez eu simplesmente acorde e pense: Que venha a próxima semana!

Enquanto isso, fico aqui escutando Chico:
"Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando um filho prá esperar também
Esperando a festa, esperando a sorte, esperando a morte, esperando o Norte
Esperando o dia de esperar ninguém, esperando enfim, nada mais além"

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

A Eternidade e um Dia

“Quanto tempo dura o amanhã?”
Um menino e um homem se encontram nas ruas da Grécia. O menino foge da guerra da Albânia, das bombas, dos bebês chorando a noite, das milícias armadas. O homem passou a vida toda exilado dentro de si mesmo, do trabalho e dos livros que escrevia.
Os dois se unem. Uma união marcada pelo medo. Medo do que virá. Ambos sabem qual será o ponto de partida, mas desconhecem a chegada. E não lhes resta tempo. Não podem ficar mais que algumas horas juntos. A história de um acalma o outro, ou será que a história de um faz com que o outro se esqueça de sua própria história?
O homem conta ao menino a vida do poeta, que sem saber o grego, comprava palavras para compor seus poemas. O menino passa a comprar palavras também. Palavras para compor uma vida longe da guerra. O homem já mexeu muito com palavras, talvez já não lhe restem tantas. Mesmo assim, o menino lhe ensina a palavra que significa ‘tarde demais’. Duas vidas que se encontraram tarde demais.
Na memória do homem, a esposa já morta. Nas cartas que ela escrevia enquanto ele estava exilado dentro de si mesmo, ela pedia um dia. Apenas um dia...
Que palavra serias capaz de me vender? Será que terei um dia ou serei apenas uma vida que chegou tarde demais?

Texto sobre o filme “A Eternidade e Um Dia”, do diretor Theo Angelopoulos.


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sábado, 23 de agosto de 2008

Transformem a ópera numa peça teatral pelo bem do público!

Sábado, 23 de agosto e acabo de chegar de uma peça teatral chamada “Ópera Cínica”. Se tivesse mais dinheiro, teria ido ver “Às favas com os escrúpulos”, com Bibi Ferreira (ainda nem acredito que não a vi!). Mas tudo bem, isso serviu para que eu aprendesse que a máxima “o barato muitas vezes sai caro” funciona.
“Opera Cínica”, de Hugo Zorzetti, é apresentada pela Exercício Produções Artísticas. Com Cristhianne Lopes, Ilson Araújo, Antônio Carlos Aguiar, Christian Mariano, Ton Rocha e Amábile Nascimento no elenco. Bom, esse pessoal, consegue transformar o texto em uma comédia pastelão.
Para começar, um anjo, não se sabe porquê, é visto por todo mundo e dá palpite na vida de quem aparece no pregão de seu protegido. O engraçado é que ninguém questiona, em hora nenhuma, a existência daquele anjo, como se os víssemos aos bandos voando por aí e falando com os humanos.
Perde-se tempo demais no começo, com historinhas que não levam a lugar nenhum. Um exemplo é a de uma senhora que vai comprar um secador de cabelo e quer saber se o objeto vai dar choque ou não. Quando o dono do pregão diz que ela pode levar sem medo, a mulher tem um surto de raiva e começa a contar a história da irmã dela que comprou um aparelho de depilar e ficou grudada nele, tamanho o choque que levou!
Ah, sobre a senhora também tenho algo a dizer. Ela usava uma roupa que parecia de velha, com direito a xale e tudo, até andou encurvada no começo da cena, mas depois, quanto mais a raiva aumentava, mais a velhice diminuía. Tudo bem, vai que é um novo tratamento para rejuvenescer!
Mas a pior coisa da peça eu conto agora: como uma ópera que se preze, essa também tinha música. Que sofrimento, meu Deus! Cada vez que alguém começava a cantar, eu rezava para acabar logo. Um casal foi escalado para a parte musical. Eles não eram personagens da peça, simplesmente cantavam músicas que ajudavam a explicar a cena (pelo menos foi o que me pareceu). A moça usava expressões faciais exageradas demais na hora de cantar. As letras das músicas eram horríveis e repetitivas e a eram cantadas com toques parecidos com aqueles de karaokê.
Aí, quando eu já estava louca de vontade de ir embora, começou a parte boa do teatro (tive só que continuar rezando para a cantoria durar pouco). A história de Aristides (o melhor ator em cena, pena que não sei o nome dele), um homem pobre que tenta vender um caixão para o dono do pregão.
A mulher de Aristides foi atropelada e os médicos disseram que ela não sobreviveria. Para dar um enterro digno à mulher, ele pega adiantamento no serviço, vende móveis, faz empréstimo e compra o melhor caixão. Mas, para a surpresa dele, quando chega no hospital, a mulher sobreviveu e precisa de uma cirurgia. E, para isso, ele precisa pagar. A saída é vender o bem mais caro que ele possui. Exatamente: o caixão. E é assim, que ele encontra com o dono do pregão e o anjo da guarda.
Sem poder ajudá-lo, o dono do pregão chama a TV. A crítica ao espetáculo que a mídia faz em cima da desgraça e pobreza das pessoas é ótima. A jornalista exagera demais e faz com que o drama fique ainda maior. Ela inclusive põe o pobre do Aristides dentro do caixão para ficar mais cinematográfico e dar mais Ibope.
Depois que aparece na TV, Aristides recebe a visita de um deputado e de um grupo de mulheres que fazem caridade. Eles brigam entre si porque todos querem ajudá-lo. Depois, resolvem não ajudar mais e brigam entre si, para ver quem é que não vão ajudar. E assim, vão embora brigando.
Aí Aristides pergunta para o dono do pregão: “Será que isso vai mudar depois do dia 5 de outubro?”
E tem como resposta: “Vai mudar, sim, vai mudar para ...” e daí ele fala o nome de um monte de cidades goianas.
E pasmem, a peça termina aí...
Ótima idéia, só que mal aproveitada. Poderiam ter explorado bem mais a história de Aristides, que é o representante dos pobres na peça. Nele estão encarnadas a ineficiência do sistema de saúde, a falta de salários dignos para quem realmente trabalha e a falta de assistência social. É também, por meio da história dele, vemos o quanto a mídia e os políticos aproveitam e exploram a desgraça dos miseráveis. Mas, preocupada em ser engraçada demais a Exercício Produções Artísticas acaba fazendo algo raso.
Talvez, sem o lero-lero do começo e sem as músicas, desse mais tempo para desenvolver a história do Aristides e a peça ficasse mais interessante. Pra falar a verdade, o que quero dizer é: Transformem a ópera numa peça teatral pelo bem do público!


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terça-feira, 19 de agosto de 2008

O vendedor de flores

Hoje eu até poderia escrever uma história de amor. Dessas como nos filmes de Hollywood: o mocinho e a mocinha são separados por alguma força do destino. Anos depois eles se encontram e sentem o coração bater mais forte. Depois disso, eu que não sou boba nem nada, copiaria modelos de roteiro que deram certo e colocaria a mocinha em cenas de choro por causa do mocinho. Enquanto isso, ele, ao som de uma trilha sonora bem romântica (sim, no meu escrito teria música), pensaria na nobre dama. E como eu adoro finais felizes, depois de vários percalços, um dia, o mocinho ligaria para a mocinha e marcariam um encontro. Ela desliga o telefone, com o coração apertado de tanta alegria, e sai correndo ao encontro dele (que é claro, será num lugar bem bonito). Daí, ela chega no lugar e ele está de costas. Como é de clichê, ele se vira vagarosamente enquanto a música tema do casal começa a tocar. Ela dá um sorriso, os dois se beijam e ao final do beijo eles dizem: Eu te amo.
Mas estou sem inspiração para contar histórias românticas hoje. Então, por falta de romance pra contar, decidi falar da vida real.

OFF: O vendedor de flores entrou na casa de dança./ Era um senhor de idade, aparentava ter mais de sessenta anos./ Não vendeu muitas rosas./ Talvez duas ou três./ Mesmo assim, não parecia triste, nem reclamou da vida./ Dançou abraçado com as flores vermelhas e brancas./ Parecia que enquanto dançava não se preocupava com a aposentadoria minguada, os remédios para comprar, as contas para pagar ou o aluguel vencido./ Pelo visto não se preocupava nem mesmo com o dinheiro que não teria para comprar comida no outro dia./ Sambou, como qualquer pagante, e foi embora.//

Sorri e cantarolei: “Amanhã vai ser outro dia. Amanhã vai ser outro dia”.


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sábado, 16 de agosto de 2008

Édipo - Do destino não se pode fugir

Foto: Divulgação da peça - Layza Vasconcelos

Corpos que se entrelaçam, pele, sexo, volúpia, desejo. E o palco pega fogo! Mas se a paixão for demais, se os personagens forem arrebatadas do chão: Água!
De fogo e água é feito o espetáculo “Édipo”, do diretor Hugo Rodas. Uma releitura de “Édipo Rei”, de Sófocles. Em cena, e com ótimas atuações, estão os atores Adriana Veloso e Thiago Benetti.
Só para conhecer a famosa tragédia que conta a história de incesto entre mãe e filho valeria a pena assistir Édipo. Mas quem comparece ao teatro ganha mais que uma história bem narrada.
“Édipo” começa com o programa de TV da Esfinge. Essa mesmo, aquela que irá lançar o enigma que abrirá as portas de Tebas para que Édipo entre no reino e se case com a rainha viúva. E no show da Esfinge, o finalista é não mais, não menos que Édipo, o herói da nossa história.
Assim que vence o programa, Édipo se casa com a rainha Jocasta. Não sem antes surgirem questionamentos como: "Você se casaria com uma mulher bem mais velha que você?", "Você se casaria com um homem bem mais novo que você?"...
"E você, seria capaz de me amar?"
Perguntas que ecoam na platéia sem resposta...
Juntos, Jocasta e Édipo vivem anos felizes. Poemas sussurrados ao ouvido enquanto fazem amor.
Mas como é do destino do casal e do destino não se pode fugir, um dia se descobrem incestuosos. Fogo no palco movido pela paixão e o desejo. Logo depois, água. Água nos sonhos e planos.
E se descobrem, assim, como joguetes na mão de alguém maior. Marionetes nas mãos do destino que brinca com o rei e a rainha de um tabuleiro de xadrez.



Obs.: A peça “Édipo” está sendo apresentada todas as quintas-feiras do mês de agosto, no Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro, às 21 horas.




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quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Sou a favor das Yang Peiyi da vida

Foto retirada do site da BBC

A chinesa Yang Peiyi, de sete anos, emprestou sua voz para a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. No lugar da menina com dentes irregulares e gordinha, apareceu a magra e simpática Lin Miaoke, de nove anos, cantando em playback a música gravada por Yang. Motivo do feito (se é que podemos chamar assim): a comissão organizadora disse que precisavam de uma imagem perfeita para representar a China e que a imagem era de Lin e não de Yang. Leia-se nas entrelinhas: preconceito.
Sou a favor das Yang Peiyi da vida. Sou a favor das gordinhas, com dentes irregulares, com cabelos que não são lisos, das negras, das deficientes físicas, das que usam aparelho nos dentes. É que as pessoas ficam criando padrões fora do comum. Como se todas nós tivéssemos que ser iguais para ser bonitas. Daí, aparece toda essa histeria pelos padrões de beleza criados sei lá por quem!
De repente, parece que todo mundo tem que ser alta, magra, com bunda e seios grandes, cabelo liso, loira dinamarquesa. Hoje mesmo na academia, uma mulher, contava, indignada, que pagou mil e quinhentos reais em um tratamento contra estrias e não adiantou. E estria não faz parte do corpo da mulher?
É claro que não sou contra a vaidade. Sou contra os excessos. Sou contra esse militarismo do “eu tenho que ser perfeita”. Ninguém é e não seremos nunca, mesmo depois de quinhentas plásticas e mil regimes.
Acho ainda mais cruel quando o militarismo do “eu tenho que ser perfeita” é usado com crianças. E olha que quem está falando é alguém que sentiu na pele isso. Fui gordinha a minha infância inteira, até minha pré-adolescência. Com 11 anos eu pesava 60 quilos. E, desde bem pequena até essa idade, que foi quando eu emagreci com dieta e exercícios físicos, me lembro de pessoas zombando de mim porque era gorda.
Me sentia massacrada cada vez que alguém, principalmente da família, me discriminava. Ainda me lembro da minha irmã e de minhas primas, todas lindas e magras, me chamando de elefante, baleia, gorda e todas essas coisas que derrubam a auto-estima de qualquer um! Demorou muito para eu me perceber como realmente sou hoje. Por isso, fico imaginando como estará a pequena Yang Peiyi depois de não aparecer na abertura dos Jogos Olímpicos porque não se encaixa em um padrão de beleza que não foi ela quem criou.
Sou a favor das Yang Peiyi da vida. De pessoas comuns, como eu e você.



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terça-feira, 12 de agosto de 2008

Gatos abandonados

Esse fim de semana aconteceu algo que me fez pensar que existem pessoas capazes de gestos muito nobres e algumas, nem tanto.
Estava no carro com um amigo meu e, quando chegávamos perto da casa dele, ele parou e disse que tinha que olhar algo. Desceu e exclamou: “Eles ainda estão aqui”. Eram cinco gatinhos abandonados dentro de uma caixa de papelão num lote baldio. Eles estavam lá à mercê de outros animais, do sol e da fome.
Mesmo não gostando de gatos, fiquei penalizada com o estado dos bichinhos que deveriam ter no máximo cinco dias de vida. Choravam muito e um deles já havia morrido. Mesmo com dó dos filhotes, fiquei espantada quando meu amigo decidiu levá-los para casa e cuidar deles.
Se fosse eu, iria para casa e ligaria para a Sociedade Protetora dos Animais para que pegassem os gatos. Ele me disse que não poderia deixá-los lá e que um tinha morrido por causa dele, já que na noite anterior, quando os descobriu, não os levou para casa. Fiquei ainda mais surpresa: ele estava salvando os outros quatro, mas só conseguia pensar que um tinha morrido!
E não é que ele os levou para casa e deu até leite na boca dos bichos? Depois, ele os encaminhou para um abrigo de animais abandonados...
Daí, fico pensando em como algumas pessoas são capazes de gestos tão ruins como abandonar seres vivos indefesos só para que eles não causem problemas. E, por outro lado, fico pensando em como outras pessoas são capazes de gestos tão nobres como levar os “problemas” dos outros para casa e cuidar deles.


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sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Cachorro de feira


Foto: Internet
“Chega! Não quero brincar disso mais não!”, ela grita pela janela. Lá embaixo, um grupo de choro canta ‘Carinhoso’.
Às vezes, ela se cansa de ficar sozinha. Nesses dias, tem vontade de fazer como aqueles cachorrinhos que são vendidos na feira. Aqueles mesmo que você passa e eles estão lá com olhinhos marejados e esbugalhados. E se você finge que não viu, eles ainda choram bem baixinho só para que não resista. E você não resiste e o acaricia. Daí, ele late, abana o rabinho e dá até piruetas.
Mas ela não está na posição de quem é escolhida e sim na de quem escolhe. E ela escolhe demais. Aí ela pensa: “Eu faço tudo errado sempre!”.



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quarta-feira, 6 de agosto de 2008

O Jardim


Foto: Mayara Vila Boa

- Existe!
- Não existe e ponto!
E ela se sentiu a pior das criaturas. Era ainda menina quando o diálogo aconteceu e nunca se recuperou por completo. Sempre se pegava pensando em como o jardim que sonhara não poderia existir. Era tão simples quando pensado: nem muito grande, nem pequeno demais, do tamanho certo para caber milhões de flores, brancas, amarelas, vermelhas, todas as cores imagináveis, tinha fonte no meio, a água fazia um barulho que acalmava, o sol brilhava mais que em outros lugares e a sombra era muito fresca. “Mas então ele só existia nos filmes, nos romances e nos pensamentos de meninas bobas?”, ela estava abismada. Não sentia nem dor, nem alegria. Era um misto de surpresa com decepção: “Não existe”.
Cresceu mesmo sem jardim. Não cultivava flores, tinha medo dos espinhos. E continuava ouvindo que jardins não existiam. Às vezes, sonhava com eles, mas eram como nos filmes: bonitos e intocáveis.
Um dia chegou o jardineiro. Na verdade ele sempre esteve ali, só que mal se percebiam. Mas há momentos em que algo mágico acontece e o coração bate mais forte. Olharam para o lado e se viram. Ele prometeu que só construiria um jardim para a mulher que amasse. Ela esperou entre um afazer e outro.
O sol já estava alto naquela manhã e ela, que saia cabisbaixa, ouviu o canto de um pássaro: “Um pássaro!”. Ergueu a cabeça e se deparou com um jardim na porta de casa. O jardineiro estava lá plantando uma flor branca entre tantas outras coloridas. Era aquele o sinal: “Existe!”. Ela correu e o abraçou como nunca havia abraçado.
Mas um dia ele esqueceu de aguar as plantas. No outro, deixou a água aberta e matou algumas flores. Depois a fonte estragou. E ela não queria ver, não estava pronta para aquilo. Aguou as plantas. Brigou quando ele não desligou a torneira. Tentou consertar a fonte. Nada adiantou. Um dia ele foi embora.
Ela, sem entender, correu para o jardim e, no auge do desespero se abraçou com algumas flores. Ouviu um barulho estranho. A textura também era diferente daquela que deveria ter uma flor. Olhou bem de perto e viu que estavam amareladas. Tocou em uma flor e ela amassou. Que espanto: “São de papel!”.
Percorreu todo o jardim arrancando uma a uma. Eram flores de papel. E ela era apenas uma menina boba achando que jardins existiam na vida real: “Não existem e ponto”. Transformou o jardim em deserto. Sentou-se ao sol e deixou-se queimar. Queria ser dura e árida como aquela areia. Apareceram outros se dizendo jardineiros. E ela, sentada no seu trono banhado de sol apenas repetia: “Jardins não existem”.
Até que um dia, quando passeava imponente com seu manto de rainha:
- O céu está bonito hoje, não é?
- É!
Ela saiu apressada. Não queria conversa. Com certeza era outro alguém que, ao ver o deserto pelas frestas do portão queria o posto de jardineiro. Não tinha tempo e, afinal de contas, jardins não existem.
Quando achou que o havia despistado, eis que ele aparece em sua frente:
- Não quer olhar o céu comigo?
- Não!
Já estava cansada...
- É que durante o dia tem o sol, as nuvens e os pássaros que voam. E a noite tem a lua e as estrelas. Quanta coisa queria te mostrar... Olhe! Está vendo aquela constelação?
Ela sorriu. E o sorriso fez-se gargalhada... Ele também sorriu e as gargalhadas se juntaram.
Os olhos de um olharam no fundo dos olhos do outro e se viram. Ele se disse forasteiro: “Com certeza veio de cavalo, submarino, voando nas asas de um dragão ou de carona com algum cometa”, ela pensou.
E então veio a pergunta:
- Quais são seus sonhos?
Naquele momento ela percebeu que não havia mais sonhos, que eles haviam sido arrancados com as flores e queimados ao sol. Ela se viu ainda criança e teve a certeza que eles começaram a morrer ali: “Não existe e ponto!”.
Ela olhou para o lado, sorriu, tentou disfarçar. E ele perguntou novamente. Ela disse dois ou três sonhos inventados ali na hora. Juntou cacos de sonho do passado com o que vivia no presente e, remendando, inventou sonhos que gostaria de ter, mas não tinha.
Ela ergueu os olhos e os dele estavam ali a fitando. As faces já bem próximas. A respiração ofegante. O coração disparado. Ele sussurra: “O que eu faço agora?”
- O que tem para se fazer... Ela responde.
E então, o beijo. Depois do beijo, um abraço e uma troca de olhares que disse tudo. Quando percebeu, já estavam sentados na varanda apreciando a sombra.
No dia seguinte, ao acordar, deparou-se com uma flor plantada no meio do deserto. Era um lírio alaranjado. Era a flor mais linda que havia visto. E estava ali sem que ela houvesse pedido para que alguém a plantasse.
A cada novo dia aparecia uma nova flor no lírio. E, as flores que morriam ao entardecer não faziam isso sem antes espalhar seu pólen. Em pouco tempo o deserto já estava cheio de flores. Havia se tornado um jardim nem muito grande, nem pequeno demais, do tamanho certo para caber milhões de flores, brancas, amarelas, vermelhas, todas as cores imagináveis, tinha uma fonte no meio, a água fazia um barulho que acalmava, o sol brilhava muito e a sombra era muito fresca.
Um dia, ela acordou em sua cama macia no quarto do alto do palacete. Os raios do sol deixavam ainda mais alva a colcha branca que a cobria. Ela sentiu tanto amor quanto nunca antes havia sentido. Ela acordou e as borboletas estavam lá. Haviam entrado pela janela.


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domingo, 3 de agosto de 2008

Faço-me saudade

Ontem assisti um espetáculo chamado Abrazos, da Cia. Teatral Martim Cererê. Era “um show musical sobre a alegria de ser brasileiro e latinoamericano”. Muito bom por sinal. Músicas que vão desde as modinhas aos tangos e textos muito bem escolhidos.
Como explica Marcos Fayad, as canções são como um abraço dado em toda a América Latina.
Os dois textos iniciais me marcaram muito. Ambos são do escritor uruguaio Eduardo Galeano. Guardei bem esse nome para procurar depois na Internet e, para minha sorte, encontrei os dois textos tais como eu havia ouvido.

“- A uva - sussurou - é feita de vinho.
Marcela Pérez-Silva me contou isso, e eu pensei: se a uva é feita de vinho, talvez a gente seja as palavras que contam o que a gente é.” (A uva e o vinho, Eduardo Galeano)

Se a gente é feito de palavras, então, isso aqui é meu auto-retrato. Na verdade era essa a intenção mesmo.
Se hoje eu fosse uma palavra eu seria saudade.
“1. Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoa ou coisa distante ou extinta. 2. Pesar pela ausência de alguém que nos é querido”. (Dicionário Aurélio).
Saudade com um abismo entre o S e o E. Saudade com o contorno das minhas letras redondas. Saudade com todas as sílabas.
Vi umas fotos suas, sonhei com você e deu saudade. Saudade de tudo aquilo que eu não vivi. Saudade das vezes que nos encontramos, dos nossos olhos fixos e abraços longos.

“Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus.
Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.
- O mundo é isso - revelou - Um montão de gente, um mar de fogueirinhas. Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos são bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar; e quem chega perto pega fogo.” (Eduardo Galeano).

Ainda me lembro da primeira vez que te vi. Peguei fogo. Aliás, na primeira, na segunda e até na terceira vez peguei fogo. Sempre pego. Não há como chegar perto de você sem que algo entre em combustão...


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sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Pessoas descartáveis ou Crianças sanguinárias

Um copo de vidro é lavado, enxugado, guardado. O dono cuida dele porque sabe seu valor e sua utilidade. Um copo descartável é usado e jogado fora. Só serve, mais nada.
Não sei não, mas parece que de tanto usar objetos descartáveis os seres humanos passaram a tratar uns aos outros como objetos descartáveis.

Um casal se encontra na balada. Ficam e nunca mais se falam.
Outro casal faz sexo casualmente.
Pais abandonam filhos à mercê da televisão.
Ex-marido manda matar a ex-mulher porque não admite que ela viva sem ele.
O namorado mata a namorada, vai para a festa e depois corta o corpo dela em pedaços e os joga no rio.
Um casal mata uma criança e joga o corpo dela pela janela.
O padrasto estupra a enteada com o consentimento da mãe dela.
Uma mulher tortura uma criança.
As crianças pisoteiam a zeladora da escola na saída para o recreio.
O menino decepa o dedo da professora com a porta do banheiro e ri.
Homens roubam um carro e arrastam, até a morte, um menino preso do lado de fora pelo cinto de segurança.
Vizinho mata vizinho por causa do lixo.

Será que em nenhum momento essas pessoas pensam no sofrimento que elas infringem às outras? Fico tentando imaginar o que passa na cabeça de seres humanos que tratam os outros como objetos descartáveis. Será que não vêem o outro como um ser humano igual a eles, com idéias, planos e sentimentos? Fico imaginando se eles colocam a cabeça no travesseiro e dormem como uma pedra ou se ficam pensando em como deve ter doído aquela agressão (física ou mental). Será que pensam na família das vítimas e nos sonhos despedaçados?
Nessas horas me lembro de uma vez quando ainda estava na faculdade e dava aulas de audiovisual para crianças de uma escola pública em um projeto da universidade. Eles tinham entre 10 e 12 anos e eu e uma colega estávamos ensinando para como fazer um roteiro. Eles eram muito criativos, mas todas as histórias eram violentas demais. Víamos claramente que era uma repetição do que eles viam onde moravam e também o que eles assistiam na TV.
Era bomba explodindo, tiros de metralhadora, sangue voando para todos os lados, acho que o que eles queriam de mais ameno para o roteiro eram umas facadas. Daí, eu perguntei: “Mas por que tanta violência?”. Um menino que deveria ser um dos mais novos da turma me respondeu: “Tia, porque nós somos sanguinários!”.
É isso aí, estamos criando crianças sanguinárias. Se a sociedade não recuperar alguns valores e deixar de tratar as pessoas como objetos descartáveis vamos continuar tendo assassinos como Mohamed (o que esquartejou a namorada) ou o Nardone (que jogou a filha da janela do sexto andar). Vamos continuar a ter vítimas como Mychelline (a que foi estuprada e morta à mando do ex-marido) ou Lucélia (a que era torturada em um prédio luxuoso de Goiânia). Estamos precisando de um pouco mais de respeito e responsabilidade emocional para com o outro.