domingo, 7 de setembro de 2008

Seqüestraram a minha sogra

- Seqüestrei a sua sogra…
- Bem feito!, e ele desliga o telefone.
Com certeza ele havia ligado para o número errado. Tinha ligado para alguém que nem tinha sogra, só pode! Ligou de novo e ninguém atendeu.
Do outro lado, o rico empresário desligou o telefone e gargalhou enquanto pensava: Se isso for verdade, Deus ouviu as minhas preces!
Ele, sem perder tempo, e acreditando que alegria de rico dura muito, gritou para a mulher que se aprontasse e arrumasse também as crianças porque eles iriam passar a tarde no clube.
Ela se espantou e veio ver o que havia acontecido:
- Mas você não ia trabalhar essa tarde? Não tinha uns balancetes da empresa para analisar?
- Estive pensando que hoje é sábado e quero passar o dia com a família!
- Vou atender o telefone...
- Não! Deixa tocar. Vai que é alguém da empresa e estraga meu sábado de folga!
- Você está esquisito... Mas tudo bem... Pena que mamãe saiu e não avisou onde ia. Ela iria adorar ir ao clube conosco...
- Você e essa sua mania de colocar a sua mãe no meio de tudo!
- E você com essa sua mania de implicar com ela!
- Mas é claro, ela é uma peste!
- Não fale assim da minha mãe!
- Tudo bem, não vamos brigar por isso... Você não ficou feliz de sair comigo? Vá se arrumar...
Ela subiu as escadas em direção ao quarto. Nisso, chega o motorista pálido e sem fôlego:
- Doutor, o senhor não vai acreditar no que aconteceu! Fui levar a sua sogra na igreja e quando estávamos voltando para casa, seqüestraram ela! Eu sei que o senhor vai querer me matar, mas eu não dei conta de fazer nada para ajudar ela! Eles estavam armados, acho até que era escopeta, isso se não for bazuca!, falou com o exagero que lhe era característico.
- Acalme-se, já estou cuidando de tudo... Os seqüestradores já ligaram aqui para pedir o resgate. Mas eu queria te pedir uma coisa: sigilo absoluto. Não quero que você comente isso com ninguém. É que você sabe como minha mulher é apegada com a mãe. Acho que se ela ficar sabendo que a mãe foi seqüestrada por homens com bazuca, pode até enfartar. E você não quer que sua patroa morra, não é?
- Não, senhor. Claro que não... Mas, como o senhor vai explicar o sumiço da sua sogra?
- Vamos fazer assim: você vai dizer pra sua patroa que a mãe dela pediu para que você a levasse para o aeroporto.
- Pra viajar?
- É, é, pra viajar. E que ela não estava sozinha...
- Não?! E tava com quem?
- Com o namorado dela...
- Uai, não sabia que ela tinha namorado...
- Você só vai dizer isso pra sua patroa! Diga que a mãe dela viajou com o namorado, que por sinal era bem mais novo. Um rapazinho!
- Viajaram pra onde?
- Pra Paris!
- Paris?!
- É, Paris. Eles foram namorar em Paris porque ela ficou com vergonha de contar o namoro para a filha.
- O senhor tem certeza?
- Tenho! E não vá dizer outra coisa, hein!
E ficou repetindo baixinho:
- Tá certo... Pra Paris com o namorado novinho... Tinha vergonha... Aeroporto.
A mulher entrou no escritório:
- Já estou pronta. Agora só faltam as crianças.
- Acho melhor você se sentar. O motorista tem algo a dizer sobre a sua mãe.
- Mamãe?! O que aconteceu? Onde ela está? Aconteceu alguma coisa? Ai, meu Deus, foi o coração?
- Calma querida, você vai ter que ser forte. Vamos lá, fale pra ela. Diga o que a mãe dela aprontou.
O motorista, com os olhos no chão diz:
- Viajou.
- Viajou?! Mamãe não viajaria sem me falar...
- Ela foi pra Paris com o namorado...
- Namorado?! Que namorado? Ela sempre amou papai e desde que ficou viúva jurou que nunca mais amaria outro homem!
- Eu sempre te falei, mas você não quis me escutar... Essas saídas da sua mãe não estavam certas. Esse negócio de ficar indo na igreja e no cemitério toda hora não tava certo. Com certeza ela ia encontrar o amante...
- Não pode ser...
- E tem mais, o motorista disse que o amante dela é um rapazinho, deve ter idade pra ser neto dela! Um escândalo!
- Meu Deus!
- Se essa história se espalhar, as portas da sociedade vão se fechar para a nossa família. Vão apontar você e dizer: Tá vendo, aquela é a filha daquela velha safada que fugiu com o rapazinho!
- Isso não pode acontecer! Não tenho culpa! Nunca achei que ela fosse capaz...
- Pois é, então, o melhor é você não comentar isso com ninguém.

A mulher, com medo de ser banida das festas da alta sociedade por causa da mãe que fugiu com o rapazinho, ficou de bico calado. O marido a convenceu a passar uns dias com as crianças na casa de praia para se refazer do baque. Na verdade, ele queria era tempo para resolver o problema, ou melhor, dar um jeito da sogra ficar onde quer que ela estivesse de vez.

O seqüestrador liga novamente:
- Estou com a sua sogra, se você não me pagar um milhão de reais, eu vou meter bala nela!
- Não dou um centavo por essa velha! Você está me fazendo um favor!
Desliga o telefone.

Nos próximos dias os seqüestradores iriam entender o porquê de tanta felicidade daquele homem ao ver a sogra seqüestrada...

Alguns homens vigiavam a mulher. O cativeiro ficava em uma chácara afastada da cidade.
Logo cedo, eles acordam com a velha batendo na porta do quarto:
- Mas vocês não tem vergonha não? Que bagunça é essa? Achei que esse tal de crime fosse organizado, mas vejo que isso aqui é uma bagunça só! Primeiro: eu não devia estar amarrada, amordaçada e não sei mais o que, como nos filmes?
Eles se entreolham sem acreditar no que estão ouvindo...
- Eu tô falando com vocês!
- Tia...
- Tia? Desde quando eu sou sua tia? Por acaso você é filho da minha irmã? Sua mãe não te deu educação, não? Me chame de senhora!
Os outros riram...
- Vocês estão rindo de quê?
Eles até se sentiram intimidados. Ela conseguia ser mais linha dura que o chefe.
- Desculpa, é que nois conversamo aqui e achamo que a senhora não ia precisá de algema não, já que tamo longe da cidade e a senhora não faz o estilo que vai fugi...
- Mas é uma desorganização mesmo! Quem é o chefe desse seqüestro?
- Ele num fica aqui não, tia. Ops, desculpa, senhora!
- Eu vou ter uma conversa muito séria com ele quando ele vier aqui...
- Sim, senhora...
- Cadê meu café da manhã? Vou já avisando que todos os dias eu acordo pontualmente às seis horas da manhã e eu quero o meu café na mesa. E já vou avisando que só como se o pão estiver fresquinho!
Eles continuavam se olhando incrédulos.
- E tem mais! Eu quero essa casa limpa! Isso aqui é um chiqueiro ou uma casa? Me recuso a ficar numa casa nesse estado. Meu genro é muito rico, vai pagar vocês bem. Então, me tratem bem! Aliás, quanto é que vocês estão pedindo de resgate?
- Um milhão...
- Nossa! Sou tão barata assim?

E nos próximos dias, ela continuou ditando as regaras da casa como um general. Em uma semana, os seqüestradores já lavavam e passavam. Isso sem dizer que limpavam o cativeiro todos os dias e até buscavam flores para enfeitar a casa. Isso, para que a mala sem alça da sogra lhes desse sossego. E é claro, também pensavam que aquele sacrifício valia um milhão.
Passaram-se semanas e nada do genro pagar o resgate. Sempre que ligavam para ele, a mesma resposta: - Fiquem com ela e façam bom proveito!
A sogra começou a gostar dos seqüestradores e, com isso, passou a lhes ensinar como organizar melhor as atividades ilícitas que praticavam. Percebeu que eles eram meio fraquinhos e quem ganhava mesmo era o chefe. O tal chefe que não corria risco e nunca aparecia. Ela então, mesmo sem ter comandado uma boca de fumo na vida, começou a dar aulas de como eles podiam lucrar com o tráfico de drogas sem ter que pagar porcentagem para o chefe. Fez uma planilha de custos para controlar o dinheiro obtido com os assaltos praticados pelo bando. Provou, por A mais Z, que era um absurdo eles seqüestrarem alguém, correrem risco de levar um tiro ou serem presos, ficarem guardando o cativeiro e ainda assim receber menos que o mentor intelecto daquele crime.
Os bandidos, então, começaram a se rebelar contra o chefe.

Um dia o empresário recebe o telefonema:
- Pelo amor de Deus, recebe sua sogra de volta! Além dela transformar minha quadrilha num bando de mariquinhas que fica limpando a casa e colhendo florzinhas, ela quer me derrubar! Só falta meus homens me pedirem carteira assinada, com direito a férias, décimo terceiro e adicional por risco!
- Tá vendo, mexe com a família dos outros! Quando você mandou seqüestrar essa mulher, não sabia no vespeiro em que estava se metendo! Por dez anos ela transformou a minha vida num inferno. Agora, ela é problema seu!
- O pior é que se eu decidir matá-la, minha quadrilha é bem capaz de se voltar contra mim...
- Que problemão, hein?!
- Recebe ela de volta...
- Quanto?
- Quanto o que?
- Quanto você me paga para receber a megera de volta?
- Ficou louco? O seqüestrador aqui sou eu!
Desligou o telefone...

Uma semana depois toca o telefone:
- Eu pago o dobro do preço do resgate pra você tirar essa mala sem alça daqui!
- Fechado! Mas só a aceito de volta depois de receber o dinheiro e verificar se não é falso...


Texto baseado na música “Seqüestraram a minha sogra”, de Bezerra da Silva.


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