domingo, 9 de novembro de 2008

Uma questão de escolha

Era só uma bonequinha graciosa e triste na vitrine da loja de brinquedos. Via as pessoas passarem pra lá e pra cá sem que a levassem para casa. Sonhava com uma menina em especial. Uma menininha que sempre passava ali na porta e ficava admirando-a.
Às vezes a menina entrava, abraçava a boneca, conversava com ela. Aqueles eram dias doces, mas quando a criança não vinha, a boneca ficava ali com o olhar perdido olhando para a rua e esperando. Era uma espera paciente e cheia de ilusão.
A bonequinha ficava a pensar que um dia poderia estar definitivamente nos braços daquela que havia escolhido como dona. Nos sonhos a menina a pegava pelos braços, rodopiava, dava-lhe beijos e a boneca dormiria nos braços dela. Seriam dias felizes.
Sonhou, sonhou a boneca. Contentava-se com nesgas de amor, restos de tempo, pequenas conversas ao pé do ouvido e olhares fortuitos pela vidraça.
Um dia, perto do Natal, a menina entrou pela porta da loja. A boneca viu que havia algo diferente naqueles olhos e um sorriso ainda mais iluminado. A bonequinha desejou ardentemente que aquele fosse o dia em que ela sairia dali para sempre nos braços da que havia escolhido para dona.
A menina entrou correndo, pegou uma outra boneca e disse com todo amor: “É essa!”. A mãe pagou, a dona da loja fez o embrulho e a menina saiu saltitando com o novo brinquedo. Não sem antes dar um beijo na testa da boneca da vitrine.
A boneca ficou atônita. Naquele dia o coraçãozinho dela de boneca chorou por ter sido preterida. Não queria saber como era a outra, não queria saber quais motivos haviam norteado a decisão da garota. Ela só se sentia como aquela que não foi escolhida. E sentir-se assim era muito ruim.
Não quis mal a menina por aquele ato, era só uma questão de escolha. Pode ser que no próximo Natal, quando o outro brinquedo estivesse gasto, a boneca da vitrine fosse escolhida. Pode ser que outra menininha a escolhesse. Muitas coisas podem acontecer e as bonecas não podem prever o tempo.
Naquela noite ela decidiu não sonhar mais. Fechou os olhos e só dormiu.

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5 comentários:

Anônimo disse...

Lindo! Doce! Comovente! Sensível!
Aliás, como vc...em tudo.
Escreve lindo, sonha muito...
Beijinhos
Marilena

Maianí Tupi disse...

Eu ando me sentindo como a boneca da vitrine! Beijos

KK disse...

Meu maior desejo é que essa boneca não espere ser escolhida jamais. Que se levante, faça seu destino completamente novo. Escolha um outro fim pra essa estória, faça duas tatuagens, aprenda a laçar e cavalgar, escolha alguém para ser dona e possa contemplar um mundo cheio de confusões e magia, mas inteiro dela!

Alberto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alberto disse...

Esta boneca me lembra as crianças em orfanatos, esperando a todo momento serem escolhidas e levadas para uma casa, para uma família de verdade. Algumas nunca o serão, principalmente as bonecas e bonecos grandes, bonecos moços. Com 18 anos eles não terão mais nem a segurança do orfanato, o governo exige que estes sejam lançados no mundo. Que tal termos menos filhos biológicos e mais filhos adotivos??? As bonecas e bonecos estão na vitrine, de braços abertos.