quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A escritora de obituários

Trabalhava na sessão de obituários de um jornal há dois anos e já estava cansada de tanta morbidez. Passava os dias entre saudades eternas, adeus, vale de lágrimas, sofrimento sem fim, dor daqueles que o amam e perdas irreparáveis.
Eram dias cinzas aqueles. Já chegava na redação com cara de cansada. Os sapatos pretos desgastados combinavam desastradamente com a calça social (sempre a mesma) e blusas de gola alta, trazia o cabelo sempre preso e se escondia atrás dos óculos. Parecia que tinha o peso da morte sobre os ombros.
Naquele dia, ao sair do jornal, sentiu a necessidade de caminhar um pouco. Andou sem rumo até chegar ao parque da cidade. Sentou- se debaixo de uma árvore e, enquanto olhava o lago, lágrimas rolavam por seu rosto. Pensava na vida que era tão diferente dos sonhos que sempre tivera. Queria ser escritora e acabara na sessão de obituários.
Fechou os olhos por alguns instantes e ao abri-los deparou-se com um senhor que estava à sua frente. Ele sorria. Ela se sentiu envergonhada de chorar diante de um estranho. Ele estendeu a mão. Ela o fitou longamente.
- Vamos dançar?
Ela pensou na estranheza daquele convite, mas ele a tomou pela mão e começaram a dançar o silêncio. Ela olhava para aqueles olhos doces e aceitava ser conduzida. Ria e chorava ao mesmo tempo.
Naquele dia fez coisas que nunca havia feito. Comeu goiaba em cima de uma árvore, deu comida aos peixes do lago, brincou com as crianças do parquinho, conversou horas com aquele homem que nunca tinha visto antes, confiou em alguém. Nunca foi tão ela como na presença dele. Se encontrou naquele desconhecido.
No outro dia os colegas de trabalho estranharam quando ela chegou de vestido florido, cabelos soltos, salto e maquiagem. Sentou-se como se não tivesse notado os olhares curiosos, escolheu qual seria o obituário e escreveu:

“Maria da Silva nasceu, cresceu e morreu. Seguiu o ciclo da vida, não há mistério nenhum. Amou muito, dizem que foi amada. Gostava de brigadeiro de colher e por isso engordou vinte quilos. Tinha como principal passatempo atazanar a vida do único genro. Dizem até que a moribunda sussurrou no ouvido dele antes da passagem para o além: ‘Volto para puxar seu pé’. Deu o último suspiro e morreu.”

Feito isso, entregou para o diagramador e saiu para nunca mais voltar.

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3 comentários:

Renatim Pirei disse...

Lindo, lindo. Acho que muita gente se sente assim... escritores de obituários, mas na verdade queremos ser outra coisa! Vejo muita coisa nesse texto.

beijos

Maianí Tupi disse...

Muito bom o "obituário" escrito com o coração do poeta.
beijos

Karine disse...

"Dançar o silêncio..." - amei!

Beijo com poesia!