quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Com amor


Há muito tempo venho percebendo sua indiferença. Já não há mais graça nas nossas antigas graças. Você não ri mais das minhas piadas, não se interessa por minhas histórias e diz que está cheio das minhas poesias. O macarrão que você gostava tanto hoje já não tem sabor, da nossa sobremesa preferida (uma mistura maluca de sorvete de morango, chocolate e maracujá) você enjoou.
Seus olhos distantes já não veem mais minhas roupas novas, o cabelo cortado ou até mesmo quando passo de lingerie na sua frente. Mas eles são capazes de ver tudo aquilo que possa ser criticado: quando eu como diante do computador, minhas celulites antes imperceptíveis, meu tênis sujo de lama depois de um dia chuvoso...
Sinto que por mais que amemos alguém e por mais que esse alguém seja interessante, um dia começamos a nos desinteressar. Acho que é isso que está acontecendo com você. Talvez nosso amor esteja pendurado por um fio, o fio do comodismo, única coisa que resta depois desses anos vivendo juntos.
Tenho medo do que possa acontecer. Medo de que nossas brigas nos tornem desprezíveis um para o outro. Se continuarmos assim, talvez não reste nem respeito. Tremo só de pensar que um dia meu nome pode se tornar impronunciável pra você. Não quero que nosso amor seja lembrado como algo que nos machucou.
Escrevo essa carta porque estou indo embora. Pode abrir o guarda roupa, não há nada lá (fiz minhas malas durante dois dias e você sequer notou). Embarco hoje para Paris. Vou fazer o curso de Arte que sempre quis e que adiei quando nos conhecemos.
Deve estar se perguntando porque não falei tudo isso pessoalmente. Sei que seria o certo, mas não posso. Você bem sabe que costumo fugir de assuntos desagradáveis (como quando brigávamos e eu apenas te abraçava e chorava para não falar coisas ruins ou apenas fugia da conversa). Hoje, eu não podia olhar nos seus olhos e dizer adeus.
Quero guardar comigo apenas as recordações boas. Quero lembrar para sempre do nosso primeiro Natal juntos, quando você apontou para o céu e me deu uma estrela (presente que nunca acabaria); das cartas que me mandou quando ficou seis meses na Alemanha; de quando dançávamos depois do jantar; dos poemas que eu lia pra você antes de dormir; de quando quebrei a perna e você cuidou de mim; de todas as vezes em que estava triste e você soube exatamente o que dizer. Mas principalmente quero lembrar dos seus olhos de admiração quando me conheceu, do seu sorriso radiante e de como ficava desconcertado ao me ver. É assim que quero lembrar de você, com a pureza dos amores que começam.
Devo partir antes que tudo acabe definitivamente...


Esse texto é um meme proposto por Isa Sousa. A idéia é escrever um texto como se rompesse com alguém. Regras do meme: 1) Escrever uma carta como se estivesse rompendo com seu namorado. 2) Escrever estas regras e uma breve explicação do que é o meme. 3) Indicar cinco pessoas.

Li o texto da Lian no blog dela. Achei lindo e, para minha surpresa, ela me indicou para fazer um também. Eu, que nunca tive coragem de terminar com ninguém achei ótimo escrever uma carta dessas!

Eu indico: Karine Insuela, Aline Leonardo, Tereza Cristina, Marilena Gomes e Daniella Barbosa. (Escolhi pessoas que acho que farão textos lindos!)

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5 comentários:

Renatim Pirei disse...

Vejo tantas coisas nesse texto... vejo muito mesmo! Anseios, pensamentos e frustrações. Gostei.

Maianí Tupi disse...

Gostei muito das visões que o Pirei destacou... concordo com ele na maioria delas. A maior delas como você mesma se define uma pessoa apaixonada e ponto.

Lian Tai disse...

Arrasou!! "A pureza dos amores que começam"... disse tudo! Beijos!

Karine disse...

Clap, clap clap...
Boa prosa.
Deixo a pergunta: O que a gente ama, quando ama o outro?
bjo com poesia.

Dani Barbosa disse...

Lindo querida, um dos mais sensiveis que ja li!Obrigada por me indicar, fico honrada e prometo em breve encarar o desafio.