quarta-feira, 17 de março de 2010

Coragem

Entrou no consultório do cardiologista.
- O que o senhor está sentindo?
- É que às vezes meu coração acelera, minhas pernas ficam bambas, minhas mãos ficam geladas...
- Hum... Mais alguma coisa?
- Ah, meus pensamentos...
- O que tem seus pensamentos?
- Ficam caóticos. Eu penso numa coisa e digo outra, quero andar pra um lado e vou pra outro e isso sem contar numa espécie de cegueira momentânea.
- Cegueira?
- É. Sabe quando tem um monte de gente num lugar e você só consegue olhar pra uma pessoa?
- Entendo... E quando é mesmo que o senhor é acometido por esses sintomas?
- Quando?! É... é...
- Se o senhor não me falar eu não posso fazer o diagnóstico...
- Quando eu vejo uma amiga minha...
- Uma amiga? Hum... sei...
- Sabe como é, né, doutor?
- E como é?
- Ah, também não sei direito... Um dia a gente se conheceu numa lanchonete, começamos a conversar, viramos amigos e agora, anos depois tá acontecendo essas coisas esquisitas... Doutor, é grave?!
- Bom, grave não é. É sério... O senhor está com uma doença chamada paixão, que tem fortes tendências a se agravar e virar amor...
- Ai meu Deus! Não me fale uma coisa dessas, doutor! E agora, o que eu faço? Tem algum remédio pra isso ou será que se eu fizer repouso absoluto passa?
Como resposta ouviu uma gargalhada. O único problema ali era falta de coragem...

Textos e imagens desse blog só podem ser publicados e/ou utilizados em outros locais com autorização da autora.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Samba lelê

Esse é meu primeiro post depois do acidente doméstico que sofri no dia 17 de fevereiro. Era uma madrugada chuvosa e eu levantei para fechar a janela da sala. Escorreguei na água que entrava por ela e cai. Bom, pelo menos acho que foi isso, já que não me lembro do que aconteceu.
É que bati a cabeça com força suficiente para me fazer esquecer dois dias antes do acidente (e o acidente também). A última coisa que me lembrava foi de ter visto um homem prateado (desses que pedem dinheiro no sinaleiro) bebendo cerveja num barzinho perto do shopping Flamboyant (também, quem esquece de uma cena dessas?).
Mesmo com a cabeça quebrada (uma espécie de Samba lelê como da música) consegui ligar para um amigo, pedir socorro e ainda abrir a porta do apartamento pra ele. Depois de passarmos por vários hospitais fomos parar no Hospital de Urgências de Goiânia, o Hugo. Lá descobriram um corte na minha cabeça que me rendeu oito pontos e uma clavícula quebrada.
O mais engraçado é que enquanto meus amigos estavam loucos de preocupação comigo, eu viajava. Nos meus delírios revi todas as cenas de filmes e peças de teatro que gosto. Eu via a artista mexicana Frida Kalo desenhando borboletas no gesso, logo depois entrava num túnel negro e via as ruas de Paris em “O fabuloso destino de Amelie Poulin”, aí eu pensava “será que ainda sei falar francês?”, mas não dava tempo de formular nenhuma frase no idioma porque eu já estava no Teatro Goiânia assistindo a peça “O Cabra que matou as cabras” e vendo o ator principal do espetáculo derrubando todas as luzes do palco, entrava de novo no túnel e via uma atriz mostrando os seios e brincando como se eles fossem olhos na peça “Preciso olhar”. Mas de repente eu voltava e estava no corredor de um hospital de frente para um homem todo machucado por causa de um acidente, mas eu não entendia a gravidade daquilo, parecia uma das imagens que edito no trabalho.
Isso sem contar nas inúmeras perguntas, quer dizer, nas algumas perguntas que fiz inúmeras vezes, tais como: Onde estou? O que aconteceu? Que horas são? ou O que o Lucas tem a ver com essa história? Eram perguntas que parece que não me davam resposta e então eu as repetia várias vezes sem ouvir o que me respondiam.
E assim eu fiquei um dia inteiro: doida doida. Depois de duas ressonâncias magnéticas que não deram nada, fui liberada para ir para casa e proibida pelo enfermeiro de deixar a janela aberta durante a noite!
O engraçado é que podia ter morrido, visto que minha janela não tem grades (o que já está sendo providenciado), mas eu não tive medo disso. Pra falar a verdade, ainda não tenho. Acho que tenho aproveitado bem a vida e não consegui lembrar de algo para me arrepender.
Ah, antes que me esqueça, a memória está voltando aos poucos!

E a propósito: Obrigada anjos (terrestres ou não) que me salvaram!

Textos e imagens desse blog só podem ser publicados e/ou utilizados em outros locais com autorização da autora.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Caixa de presentes

Passou o dia todo recortando papeis. No chão, onde cantarolava, podia-se ver lápis de cor, tinta e giz de cera. Quando terminou, colocou tudo dentro de uma grande caixa branca e amarrou com um laço vermelho.
- Pronto!, sorriu como se tivesse ganhado o prêmio por escalar o Everest.
Caminhou até a esquina. Bateu na porta e esperou enquanto ouvia passos lentos que caminhavam a seu encontro. Do outro lado ele atendeu com a mesma cara triste dos últimos meses.
Ela estendeu o presente sem dizer palavra. Ele apanhou a grande caixa branca que estava muito leve. Abriu o laço, tirou a tampa e pode ver inúmeras boquinhas feitas de papel e cor.
- O que é isso?
- É felicidade...
E uma explosão de gargalhadas invadiu a sala.

Textos e imagens desse blog só podem ser publicados e/ou utilizados em outros locais com autorização da autora.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

O livro de respostas

Ela pediu a ele um livro de respostas como presente de aniversário.
- Respostas? Como assim?
- É, respostas. Respostas sobre as coisas da vida...
Naquele mesmo dia ele começou a procurar. Procurou por toda a semana, na seguinte também e até na outra.
Achou livros de matemática que ensinavam que dois mais dois era igual a quatro, cinco vezes cinco era vinte e cinco. Depois iam se complicando em equações e problemas, mas todos tinham soluções.
Também descobriu os livros de física com suas leis. “A toda ação corresponde uma reação”. E = mc²...
- Não, não, não é isso...
Procurou os livros de poemas, mas eles não tinham respostas. Nem nos romances, nas peças de teatro também não, nos livros de música não encontrou, os de psicologia o deixaram ainda com mais perguntas.
- Onde é meu lugar?
- O que eu faço agora?
- Pra onde eu vou?
- Isso está certo ou errado?
- Esse ou aquele?
- Isso ou aquilo?
Ai, ai, ai, eram tantas perguntas sem respostas...
Mas enfim resolveu.
Ela recebeu o presente com uma enorme alegria. Será mesmo que tantas respostas cabem num livro tão fininho assim?, pensou.
Desembrulhou o pacote devagarzinho. E viu, surpresa, uma revista de palavras cruzadas. Olhou pra ele com olhos de interrogação e ouviu como resposta:
- Resposta mesmo só em fim de revista de palavra cruzada.

Textos e imagens desse blog só podem ser publicados e/ou utilizados em outros locais com autorização da autora.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Desejos de Ano Novo

Senhor,
Nesse ano me faça ainda mais forte que em todos os anos.
Para que tudo dê certo e quando tudo falhar, me dê forças.
Quando meu coração sangrar e minha alma se encher de jubilo, me dê forças.
Mesmo quando eu quiser gritar que sim ou sussurar que não, me dê forças.
Todas as vezes que eu chorar e as inúmeras vezes que rir, me dê forças.
Quando eu amar profundamente e quando odiar, me dê forças.
Mesmo se eu sentir compaixão ou raiva de mim, me dê forças.
E quando eu achar que não sou desse planeta, me dê forças.
Me dê forças, Senhor, para todas as vezes em que eu quiser ser eu mesma e o mundo quiser que não.
Me dê forças, Senhor, para suportar, suportar e quando eu achar que não posso mais suportar, que eu ainda suporte. Cada vez sempre e mais força.
Amém

Textos e imagens desse blog só podem ser publicados e/ou utilizados em outros locais com autorização da autora.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Lei da oferta e da procura

Pegou o grande livro e procurou atentamente até que finalmente achou: Lei da Oferta e Procura. “Nos períodos em que a oferta de um determinado produto excede muito à procura, seu preço tende a cair. Já em períodos nos quais a demanda passa a superar a oferta, a tendência é o aumento do preço”.
Então era disso que ele falava? Como basear os relacionamentos humanos em leis econômicas?
Pensou, pensou e decidiu. Pendurou no peito uma grande placa onde se lia: Não há vagas. Colocou no dedo um anel onde se lia: Para sempre.
No outro dia, dobrando a esquina, já se podia ver a fila que se formava em frente a casa. Todos queriam um pouco daquele produto tão escasso no mercado. Amor verdadeiro, diziam, estava em falta e poderia ser para sempre. Nem mesmo no mercado paralelo poderiam achar. Outros ainda contavam, como que sussurrando, sabiam de gente que tinha oferecido tudo o que tinha, mas ela havia recusado a oferta. E os mais pessimistas constatavam: É, não há saída. Dizem que até mesmo o Governo vai confiscar o que ainda resta por aí. Tem-se que estocar para o futuro.
E ela espiava rindo da janela. Um riso louco de quem não entende os seres humanos.

Textos e imagens desse blog só podem ser publicados e/ou utilizados em outros locais com autorização da autora.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A árvore proibida



E por capricho colocou a árvore no meio do bosque. Frondosa, de longe a mais bonita entre todas. As frutas vermelhas e grandes exalavam um cheiro doce e convidativo.
Mas aos pés da árvore escreveu em uma pequena placa: Proibido. Sem maiores explicações, apenas Proibido. E por assim ser, as frutas chamaram ainda mais a atenção. Até que ela tentada por tudo aquilo comeu uma delas.
E dali em diante nada mais seria o mesmo...
- Proibido por quem?, perguntou Eva.
- Cala a boca menina curiosa! Não pergunte mais do que você pode compreender!, respondeu a serpente.
Saiu falando baixinho: Proibido. Mas não entendeu o verdadeiro significado, se é que há um significado quando apenas queremos.
E tudo já estava escrito antes mesmo de existirem macieiras e até mulheres.

Textos e imagens desse blog só podem ser publicados e/ou utilizados em outros locais com autorização da autora.