sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Pessoas descartáveis ou Crianças sanguinárias

Um copo de vidro é lavado, enxugado, guardado. O dono cuida dele porque sabe seu valor e sua utilidade. Um copo descartável é usado e jogado fora. Só serve, mais nada.
Não sei não, mas parece que de tanto usar objetos descartáveis os seres humanos passaram a tratar uns aos outros como objetos descartáveis.

Um casal se encontra na balada. Ficam e nunca mais se falam.
Outro casal faz sexo casualmente.
Pais abandonam filhos à mercê da televisão.
Ex-marido manda matar a ex-mulher porque não admite que ela viva sem ele.
O namorado mata a namorada, vai para a festa e depois corta o corpo dela em pedaços e os joga no rio.
Um casal mata uma criança e joga o corpo dela pela janela.
O padrasto estupra a enteada com o consentimento da mãe dela.
Uma mulher tortura uma criança.
As crianças pisoteiam a zeladora da escola na saída para o recreio.
O menino decepa o dedo da professora com a porta do banheiro e ri.
Homens roubam um carro e arrastam, até a morte, um menino preso do lado de fora pelo cinto de segurança.
Vizinho mata vizinho por causa do lixo.

Será que em nenhum momento essas pessoas pensam no sofrimento que elas infringem às outras? Fico tentando imaginar o que passa na cabeça de seres humanos que tratam os outros como objetos descartáveis. Será que não vêem o outro como um ser humano igual a eles, com idéias, planos e sentimentos? Fico imaginando se eles colocam a cabeça no travesseiro e dormem como uma pedra ou se ficam pensando em como deve ter doído aquela agressão (física ou mental). Será que pensam na família das vítimas e nos sonhos despedaçados?
Nessas horas me lembro de uma vez quando ainda estava na faculdade e dava aulas de audiovisual para crianças de uma escola pública em um projeto da universidade. Eles tinham entre 10 e 12 anos e eu e uma colega estávamos ensinando para como fazer um roteiro. Eles eram muito criativos, mas todas as histórias eram violentas demais. Víamos claramente que era uma repetição do que eles viam onde moravam e também o que eles assistiam na TV.
Era bomba explodindo, tiros de metralhadora, sangue voando para todos os lados, acho que o que eles queriam de mais ameno para o roteiro eram umas facadas. Daí, eu perguntei: “Mas por que tanta violência?”. Um menino que deveria ser um dos mais novos da turma me respondeu: “Tia, porque nós somos sanguinários!”.
É isso aí, estamos criando crianças sanguinárias. Se a sociedade não recuperar alguns valores e deixar de tratar as pessoas como objetos descartáveis vamos continuar tendo assassinos como Mohamed (o que esquartejou a namorada) ou o Nardone (que jogou a filha da janela do sexto andar). Vamos continuar a ter vítimas como Mychelline (a que foi estuprada e morta à mando do ex-marido) ou Lucélia (a que era torturada em um prédio luxuoso de Goiânia). Estamos precisando de um pouco mais de respeito e responsabilidade emocional para com o outro.

8 comentários:

KK disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
KK disse...

A própria pessoa é vazia, o outro para ele tem o mesmo sentido de existir que ele mesmo: nenhum! Li uma matéria numa Veja sobre isso. Adolescentes que não têm mais objetivos, sonhos, desejos e q os pais não são mais modelos para seguir ou desafiar. Não querem nada, zumbis!
Interessante isso, Mayara, que sociedade está se formando...

KK disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
KK disse...

demorei mas achei.. foi uma entrevista sobre o fim da família, interessante e fala sobre o que vc escreveu.

http://veja.abril.com.br/230408/p_092.shtml

"Pela primeira vez na história, a instituição familiar está desaparecendo, e as conseqüências são imprevisíveis. Impressiona que antropólogos e sociólogos não se interessem por isso", diz o psicanalista francês Charles Melman, de 76 anos.

JOVENS NO DIVÃ – Fico surpreso quando constato que, se há uma clientela interessada e engajada na psicanálise hoje em dia, é a dos jovens dos 18 aos 30 anos. Eles não procuram o psicanalista pelo fato de reprimirem seus desejos, mas porque não sabem o que desejam. É uma situação totalmente original em relação a Freud. Antes, a pessoa recorria à psicanálise porque não ousava realizar seus desejos. Hoje, principalmente no caso dos jovens, é por não saber o que desejar. Isso acontece porque nossos jovens foram criados em condições que promovem a busca rápida do prazer máximo e sem obrigações. O problema é que essa forma de lidar com o desejo produz situações de dificuldade para os jovens. Isso os leva ao divã.

FIM DA FAMÍLIA – Assistimos hoje a um acontecimento que talvez não tenha precedente na história, que é a dissolução do grupo familiar. Pela primeira vez a instituição familiar está desaparecendo, e as conseqüências são imprevisíveis. Impressiona-me que os sociólogos e antropólogos não se interessem muito por esse fenômeno. Nesse processo, podemos constatar que o papel de autoridade do pai foi definitivamente demolido. Antes, o menino tinha na figura do pai um rival e um modelo. Um rival que despertava nele o gosto pela competição e um modelo na busca do prazer sexual. Já para a menina, tratava-se de um homem em quem ela procurava se completar. Hoje, com o declínio da figura paterna, nossos jovens podem estar menos propensos a batalhar pelo sucesso, a estabelecer um ideal de vida e até a descobrir o gosto pelo sexo.

KK disse...

desculpe, Mayara, excluí duas vezes pq escrevi faltando letras... só vejo depois! preciso de editora! hehehe
bjs

Dulce disse...

MAYARA, LER SEUS TEXTOS ME ENRRIQUECE!

kheyla disse...

Ao ler esse texto logo me veio à mente um monte de coisas...tenho dois sobrinhos, um ainda na infância e outro entrando na pré-adolescência, e é por preocupação com eles e com os filhos que quero ter que faço essa reflexão todos os dias, onde vamos parar? Você bem disse: " será que essas pessoas dormem tranquilas ?" Ao ver tudo isso acontecendo, morro de inveja, de saudade, de vontade de trazer de volta "na marra" a época da minha infância, em que eu e minhas amigas brincávamos de pique, de cozinhadinho, queimada, e até mesmo de barro, barro puro e os pés descalços nas ruas sem asfalto do conjunto castelo branco..Há tempo bom aquele!! Tanta maldade, tanta loucura, tanto desespero praquê? Sei que isso tem motivos, espirituais? Talvez, aliás, o mais óbvio... mas aí já é outra grande reflexão..só nos resta então ter fé, fazer o bem e acreditar em algo muito superior a tudo isso!

teixeira disse...

Boa análise, mas a falta de tempo tira das pessoas a reflexão, o momento de perceber que sociedade estamos formando.
Sua análise e reflexão é mais aguçada por trabalhar com notícia e receber sempre notícias piores.
Mas será que não são os meios de comunicação os responsáveis pela proliferação da violência? Não tem muito mais valor as notícias de desgraça do que as educativas?
Crimes absurdos ficam desprezíveis quando surge um pior, e isso se torna tão normal que a sociedade passa a acostumar com aquilo, e logo surge outro crime pior, talvés por um telespectador que preferiu mostrar que é mais cruel, ou mesmo pq aprendeu na tv. O que pensa sobre isso?